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No início de 2026, um dos mais esperados acordos comerciais globais finalmente tomou forma. Diante disso, após mais de duas décadas de negociações, o Acordo de Associação entre o Mercosul e a União Europeia (UE) foi assinado em Assunção, no Paraguai. Com o objetivo de criar uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, envolvendo cerca de 780 milhões de consumidores e reduzindo drasticamente tarifas entre os dois blocos econômicos.
Apesar das perspectivas de crescimento comercial e fortalecimento das relações econômicas entre América do Sul e Europa, o acordo catalisou preocupações profundas no setor agrícola, notadamente entre os pequenos produtores de leite brasileiros. Desse modo, para muitos deles, a liberalização comercial, embora potencialmente vantajosa em algumas frentes, representa um novo conjunto de riscos que podem pressionar ainda mais uma cadeia produtiva já fragilizada.
No Brasil, a manifestação mais concreta dessas apreensões vem de associações como a Assuleite (Associação dos Produtores de Leite de Mato Grosso do Sul). Sendo assim, a associação alerta para os impactos que as reduções tarifárias e as novas cotas de importação poderão ter sobre os preços pagos ao produtor e sobre as margens de lucro. Ademais, pequenos produtores, muitos dos quais já trabalham com margens apertadas e custos elevados, veem o acordo como um fator adicional de competição com produtos europeus . Especialmente derivados lácteos como leite em pó e queijos finos. Produtos que chegam ao mercado interno a preços potencialmente mais baixos em função de subsídios e estruturas logísticas distintas na UE.
Historicamente, produtores brasileiros enfrentam desafios de custo de produção, volatilidade de preços e estruturas de mercado que. Com isso, em muitos casos, favorecem grandes volumes e economias de escala. Assim, em um cenário de competição internacional ampliada, a expectativa de maior oferta de produtos importados pode pressionar os preços internos. Em particular em períodos de maior oferta doméstica, quando a elasticidade dos preços já se mostra sensível à variação da oferta e demanda.
Para representantes do setor industrial, o acordo foi o “melhor possível” nas condições negociadas, indicando que os termos relacionados aos laticínios não sofreram alterações drásticas desde as negociações anteriores. Associações do segmento destacaram avanços, como a manutenção de certas reservas em rótulos e denominações europeias. Além disso, muitos itens de maior consumo, como mussarela, creme de leite e leite condensado, ficaram de fora da lista de cotas preferenciais, reduzindo o potencial impacto direto sobre a indústria nacional.
Essa divergência de percepções entre produtores rurais e a indústria revela uma tensão estrutural no setor leiteiro brasileiro. Enquanto a indústria busca estabilidade em mercados amplos e reagentes às dinâmicas globais, muitos pequenos produtores dependem de mercados locais e de margens ainda mais estreitas. Nesse contexto, qualquer pressão adicional sobre os preços pode significar a inviabilidade econômica de suas propriedades.
A assinatura do acordo Mercosul-UE ocorre em meio a fortes reações de agricultores em outras regiões. Como na Europa, onde produtores de diferentes setores (incluindo leite, arroz e carnes) têm protestado contra a perspectiva de competição internacional intensa e riscos à sustentabilidade de pequenas propriedades.
Isso aponta para uma realidade que vai além de simples cálculos de comércio. O equilíbrio entre eficiência econômica, sustentabilidade das cadeias produtivas e justiça competitiva entre diferentes modelos de produção. A abertura de mercados pode trazer ganhos agregados ao PIB, maior oferta de produtos e relações comerciais mais robustas. No entanto, também evidencia a necessidade de políticas públicas que considerem a capacidade de adaptação dos pequenos produtores. Como programas de apoio, mecanismos de mitigação de riscos e formação de cooperativas que maximizem poder de negociação.
Diante desse cenário, a discussão sobre o impacto do acordo no setor leiteiro vai muito além de uma simples avaliação de fluxos comerciais. Ela envolve uma reflexão profunda sobre como garantir que pequenas e médias propriedades rurais possam competir de forma sustentável em um mercado globalizado. Além disso, essa discussão também precisa considerar os aspectos sociais, econômicos e ambientais que sustentam a produção local de alimentos essenciais.
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