Hábitos: o elo esquecido da Segurança dos Alimentos

Assim como você, eu também fiz uma avaliação sobre o meu ano de 2025, que, foi bastante desafiador e mexeu com muitas estruturas!

A busca pelo autoconhecimento segue, já a alguns anos, como um pilar na minha vida e quanto mais eu me estudo e estudo sobre como estudar a mim e as minhas relações, mas eu vejo que preciso aprender.

Neste último ano eu estudei sobre Neurociência e Inteligência Artificial, duas pós graduações em instituições renomadas, onde, fui agraciada com aulas espetaculares e nesta minha análise de 2025 e planos para 2026, resolvi que tentarei trazer por aqui assuntos que, se alguém tivesse me explicado antes, minha vida no Food Safety (e em todas as áreas) teria sido mais fácil.

E já deixo um conselho, busque estudar sobre Pessoas, indiferente da área que você atua, principalmente se você exerce papel de liderança, estude sobre PESSOAS.

Hábitos: o elo esquecido da Segurança dos Alimentos

Começo o ano falando de algo que está intrinsicamente relacionado às Boas Práticas de Fabricação e a todos os programas de segurança dos alimentos que as empresas devem implementar.

Todos estes programas dependem de PESSOAS! Então, não podemos mais ficar apenas debatendo perigos, programas, métodos, procedimentos. Precisamos falar sobre comportamento, hábito, moral, ética.

Quem já não teve aquele sentimento de que um novo ano começou, mas que os problemas seguem os mesmos?

Muda ano e os problemas continuam! Se o pensamento é esse, será que não está na hora de olhar e fazer de forma diferente? E mais ainda, será que não está na hora da mudança começar em você?

O problema não é falta de treinamento

Em praticamente toda indústria de alimentos, a queixa se repete:

“Nós treinamos, treinamos… e nada muda.”

Treinamentos são realizados, listas de presença são assinadas, procedimentos estão escritos, auditorias acontecem. Ainda assim, comportamentos básicos continuam falhando: mãos não são higienizadas corretamente, portas ficam abertas, colaboradores circulam sem atenção aos pontos críticos, práticas inadequadas se repetem, muitas vezes por pessoas que sabem exatamente o que deveria ser feito.

Isso nos obriga a encarar uma verdade desconfortável para gestores e consultores de Food Safety: muitas vezes o problema não é a falta de conhecimento. O problema é hábito.

Quando falamos em Boas Práticas de Fabricação, estamos falando essencialmente de comportamentos simples, repetitivos e esperados, que deveriam ocorrer de forma automática. E exatamente por isso, são difíceis de mudar.

Este primeiro artigo tem um objetivo claro: explicar o que são hábitos, por que eles existem, como são formados e se é possível mudá-los, criando uma base sólida para que gestores de segurança dos alimentos consigam atuar de forma mais estratégica e menos frustrante em 2026 e nos próximos anos.

O que são hábitos?

De forma simples, hábitos são comportamentos automáticos, acionados por um contexto específico, executados quase sem esforço consciente.

Segundo Charles Duhigg, no livro O Poder do Hábito, hábitos são compostos por um loop de três elementos:

  1. Gatilho – o estímulo que inicia o comportamento
  2. Rotina – o comportamento em si
  3. Recompensa – o benefício percebido, mesmo que inconsciente

Esse ciclo ocorre continuamente no cérebro porque ele é eficiente. Automatizar decisões reduz o esforço mental e libera energia cognitiva para outras tarefas.

Existe outras formas de dividir essa formação de hábitos, James Clear, por exemplo, propõe um modelo de quatro estágios para o ciclo de hábito:

  1. Estímulo: informação inicial que sinaliza uma possível recompensa.
  2. Desejo: a motivação intrínseca que surge após o estímulo.
  3. Resposta: comportamento ou ação que se segue ao desejo.
  4. Recompensa: O objetivo final.

 

Para não esquecer:

– Os dois modelos destacam a importância da recompensa.

– O cérebro humano adora economia de energia e o hábito é a ferramenta perfeita para isso.

 

Por que os hábitos existem?

Do ponto de vista neurobiológico, hábitos são uma estratégia de sobrevivência.

Pesquisas em neurociência mostram que, à medida que um comportamento se repete, a atividade cerebral consciente diminui e o controle passa para estruturas mais primitivas, como os gânglios da base, responsáveis por comportamentos automáticos.

Isso significa que:

  • O cérebro para de “pensar” sobre o comportamento
  • A ação passa a ocorrer no “piloto automático”
  • A pessoa executa a rotina mesmo aquelas que ela sabe que não deveria

Esse mecanismo é extremamente útil para tarefas do dia a dia: dirigir, escovar os dentes, digitar, mas se torna um grande risco quando aplicado a contextos críticos como a segurança dos alimentos ou mesmo para saúde individual: alimentação, beber, fumar, uso de redes sociais, etc.

 

O choque entre hábito e food safety

Aqui está o ponto central que muitos programas de BPF ignoram: A indústria exige atenção constante em um ambiente que favorece o automático.

Observe alguns exemplos comuns:

  • Sair do banheiro e achar que lavou bem as mãos
  • Entrar na fábrica e esquecer de higienizá-las novamente
  • Tossir, coçar o rosto, pegar algo no chão e continuar a atividade
  • Manter portas abertas “só por um instante” é mais rápido do que parar para fechar.

Estes comportamentos na maioria das vezes não ocorrem por maldade ou descaso consciente. Eles acontecem porque:

  • a pessoa já fez aquilo centenas de vezes
  • nada de ruim aconteceu imediatamente
  • o cérebro aprendeu que o custo de mudar é maior que o risco percebido
  • o cérebro não detectou uma recompensa

Isso explica por que treinamento isolado não sustenta mudança de comportamento.

Como os hábitos são formados?

A ciência comportamental é clara: hábitos não surgem por decisão racional, mas por repetição associada a contexto e recompensa.

Estudos publicados em revistas como Health Psychology e Journal of Behavioral Medicine, indicam que:

  • A formação de um hábito pode levar semanas ou meses, dependendo da complexidade
  • A constância do contexto é mais importante que a motivação
  • Repetição sem reforço leva à regressão do comportamento

Em outras palavras:
não basta ensinar o que fazer
– é preciso estruturar o ambiente para que o comportamento desejado seja o caminho mais fácil

 

É possível mudar um hábito?

Sim, mas não da forma como tradicionalmente tentamos.

Um erro comum nos programas de Food Safety é tentar eliminar hábitos ruins, quando na verdade o cérebro funciona melhor ao substituir rotinas, mantendo o mesmo gatilho e oferecendo uma recompensa semelhante.

A literatura científica mostra que hábitos antigos raramente desaparecem. Eles ficam adormecidos e reaparecem sob estresse, cansaço, pressão de tempo ou baixa supervisão, exatamente as condições comuns em ambientes produtivos.

Portanto, a pergunta correta não é: “Como faço as pessoas pararem de agir errado?”

Mas sim: “Que hábito novo eu quero construir no lugar do antigo?”

 

O impacto disso para gestores e consultores de Food Safety

Quando entendemos hábitos, mudamos completamente a abordagem:

  • Treinamento deixa de ser evento e passa a ser processo
  • Fiscalização deixa de ser punição e passa a ser feedback
  • Cultura deixa de ser discurso e passa a ser design comportamental

Gestores que ignoram o papel dos hábitos ficam presos a um ciclo infinito de retrabalho, não conformidades recorrentes e desgaste com equipes.

Gestores que entendem hábitos começam a atuar na causa, não apenas no sintoma.

 

Sem entender hábitos, não existe cultura de segurança dos alimentos

Boas Práticas de Fabricação não são apenas procedimentos, são hábitos operacionais repetidos todos os dias.

Enquanto continuarmos tratando comportamento humano como se fosse apenas uma questão de “querer fazer certo”, continuaremos ouvindo:“Já treinamos, mas não muda nada.”

Este artigo é o primeiro passo para mudar essa lógica.

Porque segurança dos alimentos não falha por falta de regra. Ela falha quando o hábito errado vence no piloto automático.

A neurociência dos hábitos.

Treinamos todo ano. Então por que nada muda?

O marketing molda o que comemos

Fonte da imagem: Imagem feita pela IA

Keli Lima
Keli Lima

CEO da BR Quality e Estilo Food Safety, especialista em Qualidade e Segurança dos Alimentos. Atua como consultora, mentora e auditora líder em normas de Food Safety e ESG.