Ética, Moral e Hábitos

Ética, Moral e Hábitos

Já falei por aqui sobre Ética e Moral e confesso que sigo pensando nestes dois conceitos e me confundindo entre eles.

Gosto de dividir por aqui o que tenho pensado e concluído, mesmo que amanhã a conclusão seja outra e fico feliz quando me chamam para debater sobre este tema, pois acredito que somente assim, conseguimos conduzir uma conclusão, mesmo que temporária.

 

Estive pensando sobre a relação entre Ética, Moral e Hábitos. Já que são temas que tenho estudado e falado por aqui de maneira separada.

 

Ética, Moral e Hábitos: o elo invisível entre consciência, cultura e comportamento cotidiano

 

Quando falamos em ética, moral e hábitos, é comum tratarmos esses conceitos como temas filosóficos ou distantes da prática. No entanto, no cotidiano das organizações, especialmente em áreas críticas como segurança dos alimentos, saúde, qualidade e compliance, esses três elementos estão profundamente entrelaçados e se manifestam, sobretudo, no comportamento diário das pessoas.

A pergunta central que este artigo propõe é: por que, mesmo com regras claras, treinamentos constantes e fiscalização, comportamentos inadequados continuam acontecendo?

A resposta passa necessariamente pela compreensão da relação entre moral (consciência individual), ética (orientação coletiva) e hábitos (automatização do comportamento).

 

Moral: a decisão que acontece quando ninguém está olhando

Do ponto de vista filosófico, a moral refere-se ao conjunto de valores, crenças e juízos que orientam a conduta individual. Sua origem etimológica vem do latim mos, moris, que significa costumes ou maneiras de agir (VÁSQUEZ, 2008).

A moral não depende da presença de normas externas ou de vigilância. Ela se manifesta no campo da consciência. É a capacidade do indivíduo de reconhecer que nem todos os meios são aceitáveis para alcançar um fim, mesmo quando não há punição envolvida.

Como bem sintetiza Clóvis de Barros Filho, “Quando não tem ninguém olhando, ainda tem alguém olhando, pensando e decidindo: EU.”

Esse ponto é fundamental: a moral opera no silêncio da decisão individual. Ela não precisa de câmeras, auditorias ou supervisão direta para existir.

 

Ética: o acordo coletivo sobre o que é aceitável

Já a ética surge como uma reflexão sistematizada sobre a moral. Sua origem vem do grego ethos, que significa modo de ser, caráter ou costume. Diferentemente da moral, a ética não se limita ao indivíduo, ela atua no plano coletivo e institucional.

Segundo Adela Cortina (2010), a ética tem o papel de orientar racionalmente a convivência humana, estabelecendo parâmetros compartilhados sobre o que é justo, correto e aceitável dentro de um grupo social ou organizacional.

A ética organiza expectativas coletivas de comportamento. No entanto, existe um ponto crítico: quanto mais frágil a moral individual, maior a necessidade de reforço ético externo.

Ambientes excessivamente regulados, hipercontrolados e punitivos tendem a gerar conformidade superficial, não compromisso genuíno, um fenômeno amplamente discutido em estudos sobre compliance e comportamento organizacional.

 

Hábitos: quando o comportamento deixa de ser uma escolha consciente

É aqui que o tema dos hábitos se torna central. Do ponto de vista da psicologia comportamental e da neurociência, hábitos são comportamentos automatizados, acionados por gatilhos contextuais e executados com baixo gasto cognitivo (WOOD; NEAL, 2007).

Charles Duhigg (2012) descreve o hábito como um ciclo composto por:

  1. Gatilho
  2. Rotina
  3. Recompensa

Quando um comportamento se repete com frequência, o cérebro deixa de tratá-lo como uma decisão moral ou ética e passa a executá-lo no “piloto automático”.

Nem sempre se trata de má intenção, mas de hábitos mal formados ou concorrentes.

 

Cultura organizacional: o terreno onde hábitos se consolidam

Edgar Schein (2010) define cultura organizacional como o conjunto de pressupostos básicos aprendidos por um grupo, que passam a ser ensinados aos novos membros como a forma correta de perceber, pensar e agir.

Na prática, cultura é: o que se repete sem ser questionado.

Ou seja, cultura não é o que está no código de ética, mas:

  • o que é tolerado
  • o que é reforçado
  • o que é ignorado

Se comportamentos antiéticos ou inseguros se repetem sem consequência, eles se transformam em hábitos coletivos, independentemente das regras formais.

Ética, moral e hábitos não são conceitos isolados, são camadas interdependentes do comportamento humano.  Ignorar qualquer uma delas compromete a construção de culturas organizacionais sólidas e sustentáveis.

Se queremos ambientes mais éticos, não basta escrever regras.
Se queremos pessoas mais conscientes, não basta vigiar.
Se queremos mudança real, precisamos transformar decisões em hábitos.

No fim, a pergunta mais honesta que uma organização pode se fazer não é: “Temos um código de ética?”

Mas sim: “Que hábitos estamos reforçando todos os dias?”

 

Referências teóricas (base conceitual)

Keli Lima
Keli Lima

CEO da BR Quality e Estilo Food Safety, especialista em Qualidade e Segurança dos Alimentos. Atua como consultora, mentora e auditora líder em normas de Food Safety e ESG.