Treinamos todo ano. Então por que nada muda?

Treinamos todo ano. Então por que nada muda?

Curva de Aprendizado e Memorização: por que reciclar não é falha, é estratégia em Food Safety

Todos os anos, a história se repete. Empresas planejam treinamentos, reciclagens e investem tempo e recursos financeiros em programações anuais. Em muitos casos, esse planejamento nasce de forma apressada, quando a alta direção solicita a apresentação do plano de investimentos para o próximo ano. O resultado costuma ser previsível: orçamentos mal dimensionados e a repetição do “mais do mesmo”, estruturados sem uma análise crítica real das necessidades do negócio e, principalmente, sem uma avaliação consistente sobre a metodologia de treinamento adotada.

E o tempo para repensar o treinamento interno? Entra ano, sai ano e ele nunca aparece. Pequenos ajustes são feitos aqui e ali, geralmente motivados por atualizações normativas ou exigências externas, e não por uma revisão profunda do método, da eficácia ou do impacto real desses treinamentos no comportamento das pessoas.

 

Treinamos todo ano. Então por que nada muda?

Se eu pudesse deixar um conselho prático para 2026, seria este: invista em uma parceria que ajude a reestruturar os treinamentos internos de forma estratégica. Não apenas o conteúdo, mas o método, a frequência, a abordagem, a linguagem e o formato. Alguém que ajude a diagnosticar o cenário atual, identificar os verdadeiros gargalos de aprendizado e, a partir disso, planejar treinamentos futuros que realmente façam sentido e funcionem.

 

Curva de Aprendizado e Memorização: por que reciclar não é falha, é estratégia em Food Safety

Em ambientes de Food Safety, é comum ouvir frases como:
“Já treinamos isso várias vezes”,
“Eles sabem, mas não fazem”,
“Parece que esquecem tudo”.

Essas falas partem de uma suposição equivocada: a de que aprender uma vez é suficiente e de que memória funciona como um arquivo permanente. A neurociência, a psicologia cognitiva e a ciência do aprendizado mostram exatamente o oposto.

O cérebro humano tem limites claros para aprender, memorizar e executar tarefas combinadas. Ignorar esses limites torna o sistema de aprendizado mais frágil.

 

O que é, afinal, a curva de aprendizado?

A curva de aprendizado descreve a relação entre tempo, repetição e desempenho. No início, o ganho de aprendizado é rápido, mas superficial. Com o tempo, sem reforço, esse aprendizado estagna ou regride.

Em termos práticos:

  • Treinar não significa consolidar
  • Entender não significa lembrar
  • Saber não significa fazer

O aprendizado real exige exposição repetida, contextualizada e espaçada. Quando o treinamento é concentrado em um único momento (por exemplo, um treinamento anual longo e denso), o cérebro absorve pouco e esquece rápido.

 

A curva do esquecimento: o que acontece depois do treinamento

Hermann Ebbinghaus, psicólogo alemão, demonstrou que esquecemos grande parte de uma informação nova nas primeiras horas ou dias, se ela não for reforçada. Essa é a chamada curva do esquecimento.

De forma simplificada:

  • Demonstrou que o esquecimento é rápido no início e se torna mais lento com o tempo, sendo mais acentuado logo após o aprendizado.
  • Mostrou que cerca de 58% da informação pode ser perdida em 20 minutos e 75% em um dia, sem revisão.

Isso não é falta de interesse, nem má vontade. É biologia.

Em Food Safety, isso explica por que:

  • Colaboradores “esquecem” procedimentos simples
  • Há reincidência dos mesmos desvios

 

Memória não é armazenamento, é reconstrução

Outro erro comum é tratar memória como um HD. A memória humana não armazena informações de forma estática. Cada vez que lembramos algo, nós o reconstruímos e essa reconstrução é influenciada pelo que na neurociência chamamos de filtros:

  • Contexto
  • Emoções
  • Pressão do tempo
  • Ambiente físico
  • Cultura organizacional

Se o ambiente reforça a pressa, o improviso ou o “sempre foi assim”, o cérebro prioriza esses sinais em detrimento do conteúdo do treinamento.

Por isso, treinar bem em um ambiente e cobrar em outro completamente diferente reduz drasticamente a retenção e a aplicação prática.

 

Por que reciclagem não é repetição, é consolidação

Reciclagem mal planejada é, de fato, cansativa e ineficiente. Mas reciclagem bem estruturada é o que transforma conhecimento em hábito.

A consolidação da memória exige:

  • Repetição espaçada (não concentrada)
  • Aplicação prática imediata
  • Conexão com situações reais
  • Linguagem simples e consistente
  • Reforços visuais e comportamentais no ambiente

Sem isso, o cérebro entende o treinamento como algo temporário, irrelevante para a sobrevivência cotidiana, e descarta a informação.

 

Quando o treinamento piora a curva de aprendizado

Treinamentos extensos, genéricos e desconectados da rotina pioram a retenção, porque:

  • Sobrecarregam a memória de trabalho
  • Misturam muitos conceitos de uma vez
  • Não criam âncoras práticas
  • Geram fadiga cognitiva

O resultado é paradoxal: quanto mais conteúdo, menos aprendizado real.

 

O papel do gestor: sair do “treinamos” para o “aprendemos?”

O gestor que entende curva de aprendizado e memorização:

  • Planeja treinamentos menores e frequentes
  • Trabalha com reforços constantes
  • Ajusta o ambiente para facilitar o comportamento correto
  • Entende que reciclar é parte do sistema, não um remendo

Treinar não é um evento. É um processo contínuo de construção de hábitos.

 

Espero que estas dicas sejam úteis para você repensar os treinamentos para 2026 e como dica extra:  O mito do “consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo” deve ficar em 2025.

A ideia de multitarefa é um dos maiores equívocos da gestão moderna. O cérebro não executa duas tarefas cognitivas complexas simultaneamente. O que ele faz é alternar rapidamente o foco de atenção, com perda de desempenho, aumento de erros e maior fadiga mental.

Estudos em psicologia cognitiva mostram que, sempre que alternamos entre tarefas, há um custo cognitivo: o cérebro precisa “desligar” um contexto e “ligar” outro. Em ambientes produtivos, isso significa:

  • Maior probabilidade de esquecer etapas
  • Execução automática sem reflexão
  • Aumento de não conformidades operacionais

Então, no seu próximo treinamento lembre-se: celular não é uma ferramenta bem-vinda, nem para quem ministra o treinamento e tão pouco para quem está sendo treinado, dentre tantas outras distrações que devem ser repensadas no contexto de um treinamento eficaz.

Em Food Safety, não lidamos apenas com normas, procedimentos e checklists. Lidamos com cérebros humanos, limitados, adaptativos e altamente influenciáveis pelo ambiente.

Esperar retenção perfeita sem reforço é ignorar décadas de evidência científica. É ignorar a biologia humana. Esperar comportamento consistente sem estrutura é transferir para o indivíduo uma responsabilidade que é do sistema.

Se você precisa de ajuda para reestruturar sua forma de dar treinamento clique aqui e fale comigo. 

 

Ética e Moral: em Food Safety, na gestão e na vida cotidiana

Compreendendo o esquecimento: teorias clássicas e seus fundamentos experimentais

Keli Lima
Keli Lima

CEO da BR Quality e Estilo Food Safety, especialista em Qualidade e Segurança dos Alimentos. Atua como consultora, mentora e auditora líder em normas de Food Safety e ESG.