Do conhecimento ao comportamento

No artigo, Hábitos: o elo esquecido da Segurança dos Alimentos, discutimos por que a Segurança dos Alimentos falha mesmo quando o conhecimento existe. Vimos que o cérebro opera no modo automático, que hábitos são formados por repetição e contexto, e que treinamento isolado não sustenta mudança comportamental.

Do conhecimento ao comportamento, como transformar Boas Práticas em hábitos reais?

Agora, avançamos para a pergunta central da gestão de Food Safety: Como transformar regras escritas e treinamentos em comportamentos automáticos no dia a dia da operação?

 

O erro clássico: tentar mudar pessoas sem mudar o ambiente

A maioria dos programas de BPF parte de uma premissa equivocada: “Se eu explicar melhor, as pessoas vão fazer certo.” ou “Se fulano entendeu e faz certo, ciclano também já deveria ter entendido”.

A ciência comportamental mostra exatamente o contrário. Em ambientes produtivos, o comportamento é mais influenciado pelo ambiente do que pela intenção.

Exemplos comuns:

  • Pias longe do fluxo real de trabalho
  • Dispensers vazios ou mal posicionados
  • Barreiras físicas inexistentes para erros previsíveis
  • Pressão por produtividade competindo com segurança
  • Falta de exemplo
  • Falta de incentivo
  • Falta de entendimento da recompensa

Quando o ambiente favorece o erro, o erro vira hábito.

Antes de exigir mudança do colaborador, o gestor precisa se perguntar: “o ambiente está desenhado para facilitar o comportamento correto?”

A Disney é um exemplo clássico de como “desenhar o ambiente” para facilitar um hábito desejado. Nos parques, a limpeza é tratada como parte da experiência e isso aparece em decisões práticas: há uma regra amplamente divulgada de manter lixeiras a poucos passos de distância (cerca de “30 passos/30 pés”), reduzindo o esforço de “procurar onde jogar fora” e evitando que o visitante fique tempo demais com o resíduo na mão (momento em que muitos desistem e largam em qualquer lugar). Ou seja, a estrutura favorece que não apenas funcionários mas todos que visitam o parque introduzam uma prática simples de descartar o lixo na lixeira e com isso os parques estão sempre limpos.

Na prática, o “truque” aqui é simples e poderoso para qualquer mudança de hábito: menos atrito + lembretes visuais no caminho + reforço consistente. Quando o ambiente oferece o recurso certo exatamente onde a decisão acontece (a lixeira “aparece” antes de você cogitar jogar no chão) e o sistema responde rápido às falhas, o comportamento correto deixa de depender apenas de “consciência” e passa a ser o caminho mais fácil, que é exatamente o que você quer quando está tentando instalar um novo hábito.

O tripé da formação de hábitos seguros

Com base no modelo do loop do hábito (gatilho → rotina → recompensa), qualquer estratégia eficaz de food safety precisa atuar nesses três pontos.

1. Gatilhos claros e visíveis

Se o gatilho não é evidente, o hábito não acontece.

Na prática:

  • Entrar na área produtiva deve acionar automaticamente a higienização das mãos
  • Sair do banheiro deve estar fisicamente conectado ao ponto de lavagem
  • Abri uma porta deve trazer o ímpeto automático de fechá-la
  • Preencher uma planilha deve fixar como o encerramento da atividade, ela não acaba se o dado não for preenchido.

Ferramentas eficazes:

  • Cores, sinalizações simples e repetitivas
  • Barreiras físicas (portas, catracas, fluxos)
  • Padronização visual (menos texto, mais padrão)
  • Entendimento do porque e do impacto disso para si mesmo
  • Identificar lideranças formais e informais que sirvam como influência positiva

 

2. Rotinas simples, possíveis e realistas

Um hábito só se consolida se a rotina for executável sob pressão.

Pergunta-chave para gestores:“Essa prática continua possível quando a linha está cheia, o tempo curto e o colaborador cansado?”

Boas práticas mal desenhadas viram:

  • Atalhos informais
  • “Jeitinhos” operacionais
  • Desvios normalizados

Se é difícil fazer certo, o hábito que se forma é o errado.

 

3. Recompensa: o elemento mais negligenciado

Aqui está um dos maiores pontos cegos da segurança dos alimentos.

Na maioria das fábricas:

  • O erro só é percebido quando vira não conformidade
  • O acerto passa completamente invisível

O cérebro aprende rápido:
✔ errar gera atenção
✖ acertar não gera nada

Recompensa não significa prêmio financeiro. Pode ser:

  • Reconhecimento imediato
  • Feedback positivo específico
  • Validação social do comportamento correto

Comportamento reforçado se repete. Comportamento ignorado desaparece.

 

Treinamento que gera hábito não é evento, é sistema

Treinamento eficaz para mudança comportamental:

  • É curto
  • É repetido
  • Está integrado à rotina
  • Usa exemplos reais do ambiente

Palestras longas, genéricas e desconectadas da realidade informam, mas não transformam.

Gestores precisam migrar de: “treinamento anual obrigatório”
para “micro-reforços contínuos no processo.”

 

O papel da liderança: hábito observado vira padrão aceito

Nenhum programa de hábito sobrevive se a liderança:

  • Tolera desvios “pontuais”
  • Ignora pequenas falhas
  • Dá exemplo incoerente

Na prática, colaboradores aprendem mais com:

  • O que o líder faz quando ninguém está olhando
  • O que ele corrige e o que ele ignora

Aquilo que a liderança não corrige, ela autoriza.

 

Indicadores de comportamento: medir além do papel

Indicadores tradicionais medem:

  • Treinamento realizado
  • Auditoria aprovada
  • Procedimento assinado

Indicadores de hábito medem:

  • Frequência real do comportamento
  • Pontos de falha recorrentes
  • Situações críticas de regressão

Hábitos não se cobram, se constroem

A Segurança dos Alimentos só se sustenta quando o comportamento correto:

  • é fácil
  • é repetido
  • é reforçado
  • é visível
  • é liderado pelo exemplo

Sem isso, treinamentos continuarão existindo apenas para cumprir agenda, e não para mudar a realidade.

Em um próximo artigo, avançaremos ainda mais:

  • como estruturar programas práticos de construção de hábitos;
  • como lidar com regressão, resistência e cansaço;
  • como integrar hábitos à cultura organizacional sem criar policiamento.

Porque na maioria das vezes, food safety não falha por falta de regra. Falha quando o hábito errado vence no dia a dia.

Veja o primeiro artigo: Hábito: o elo esquecido da Segurança dos alimentos.

Uma nova perspectiva sobre hábitos e a interface entre hábitos e objetivos.

Treinamos todo ano. Então por que nada muda?

Keli Lima
Keli Lima

CEO da BR Quality e Estilo Food Safety, especialista em Qualidade e Segurança dos Alimentos. Atua como consultora, mentora e auditora líder em normas de Food Safety e ESG.