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Viajar de avião é parte da rotina de milhões de pessoas todos os dias e sabemos que este tipo de ambiente pode trazer alguns riscos para saúde, como a propagação de doenças contagiosas e é por isso que existem vários protocolos de desinfecção do ambiente, mas, o ideal mesmo é que pessoas doentes viagem com suas máscaras e a troquem com frequência durante o voo, e falo isso com propriedade porque uma das piores infecções respiratórias que já peguei foi em um avião e eu estava grávida, a doença me levou para o hospital e a um estado bem debilitado por dias. Mas, o ambiente enclausurado e o numero de pessoas de diferentes localidades no mesmo pequeno ambiente não são a única preocupação, existe um detalhe pouco discutido que pode representar um risco à saúde: a qualidade da água servida a bordo.
Um estudo recente publicado pelo Center for Food as Medicine & Longevity, chamado 2026 Airline Water Study, trouxe à tona um alerta importante: a água disponível em muitas aeronaves pode estar longe do ideal e, em alguns casos, pode ser considerada potencialmente insalubre.
O estudo analisou dados oficiais sobre a qualidade microbiológica da água oferecida em aeronaves comerciais nos Estados Unidos, ao longo de um período de três anos, entre outubro de 2022 e setembro de 2025. Foram mais de 35 mil amostras avaliadas, envolvendo dez grandes companhias aéreas e outras onze companhias regionais. O objetivo não foi levantar percepções ou criar alarmismo, mas observar, a partir de indicadores de conformidade sanitária, o quanto os sistemas de água a bordo estão realmente controlados.
O ponto mais importante, talvez, é entender que a água servida em aviões depende de tanques internos e de sistemas de armazenamento e distribuição que funcionam como pequenos “sistemas de água potável transitórios”. Essa característica cria condições muito particulares de risco. A água pode permanecer parada por longos períodos, pode sofrer contaminação durante o abastecimento em solo e, principalmente, pode estar sujeita à formação de biofilmes nas tubulações e reservatórios — um desafio amplamente conhecido por profissionais de segurança dos alimentos e microbiologia.
O estudo também reforça que este não é um tema novo e, muito menos, sem regulamentação. Desde 2011, os Estados Unidos possuem uma norma específica para esse cenário, chamada Aircraft Drinking Water Rule (ADWR), que exige que companhias aéreas mantenham rotinas de desinfecção, flushing e testes regulares para indicadores microbiológicos como coliformes e E. coli. O problema é que, mesmo mais de uma década depois, os dados mostram que a conformidade ainda varia muito entre empresas.
Um aspecto histórico citado no próprio material ajuda a entender por que essa regra foi criada. Em 2004, avaliações conduzidas pela EPA encontraram níveis generalizados de não conformidade nos sistemas de água potável em aeronaves. Esse cenário levou ao reconhecimento de que aviões, por suas características operacionais, exigem um controle próprio e contínuo, já que não se trata de um sistema de abastecimento comum, como o de uma cidade ou de uma indústria fixa.
A análise incluiu:
Para organizar os resultados, o relatório atribuiu a cada companhia um Water Safety Score, variando de 0 a 5. Essa pontuação foi construída a partir de critérios como número de violações por aeronave, presença de E. coli acima do limite permitido, frequência de amostras positivas, emissão de notificações públicas e consistência nas rotinas de limpeza e desinfecção dos tanques. Com isso, o estudo buscou aproximar a discussão de uma lógica real de gestão de risco: não basta afirmar que a água é segura, é preciso demonstrar, monitorar e sustentar essa segurança ao longo do tempo.
Os resultados mostram diferenças importantes. Companhias como Delta e Frontier aparecem no topo, com pontuações mais altas e melhor desempenho de conformidade. Outras, como American Airlines e JetBlue, figuram entre as piores colocadas, indicando fragilidades persistentes nos controles. O relatório é particularmente crítico em relação às companhias regionais, afirmando que, com poucas exceções, muitas ainda precisam de melhorias urgentes em seus programas de segurança da água.
O estudo destacou como melhores colocadas:
✅ Delta Airlines — Score 5.0 (Grade A)
✅ Frontier Airlines — Score 4.8 (Grade A)
✅ Alaska Airlines — Score 3.85 (Grade B)
Entre as regionais:
✅ GoJet Airlines — Score 3.85 (Grade B)
Segundo o relatório:
⚠️ American Airlines — Score 1.75 (Grade D)
⚠️ JetBlue — entre as piores avaliações
Além disso, o estudo concluiu que:
“Quase todas as companhias regionais precisam melhorar urgentemente a segurança da água a bordo.”
Outro achado preocupante foi a atuação limitada das agências reguladoras.
A responsabilidade pela água em aeronaves é compartilhada entre:
Mas, segundo o estudo, a EPA raramente aplica penalidades civis mesmo quando há violações.
Do ponto de vista da saúde pública, é essencial interpretar esses dados com equilíbrio. O estudo não afirma que beber água no avião inevitavelmente resultará em doença. Mas ele reforça um princípio básico da segurança dos alimentos: água contaminada é uma via crítica de exposição. A presença de coliformes ou E. coli em sistemas fechados sugere falhas de higienização, riscos evitáveis e um nível de controle abaixo do esperado para um serviço regulado e de alta complexidade.
Para profissionais de qualidade e segurança dos alimentos, essa discussão traz uma reflexão ainda mais ampla. Muitas vezes, os incidentes não surgem no “alimento principal”, mas nos elementos periféricos, nos bastidores do sistema. Água é ingrediente. Água é insumo. Água é base para higienização. Água é risco. Em operações como catering aéreo, hospitais, navios ou qualquer ambiente de abastecimento transitório, a pergunta central não é apenas “há uma norma?”, mas sim: Existe validação? Existe rotina real? Existe fiscalização? Existe monitoramento?
Para passageiros, recomendações prudentes continuam sendo preferir água engarrafada lacrada e evitar bebidas preparadas com água do tanque, especialmente em situações de maior vulnerabilidade, como crianças pequenas, idosos ou pessoas imunossuprimidas. Mas a responsabilidade principal não pode ser transferida ao consumidor. O estudo reforça que companhias aéreas têm obrigação legal e sanitária de fornecer água segura, e que transparência e fiscalização são parte essencial desse processo.
O estudo recomenda cuidados simples durante viagens:
✅ Prefira água engarrafada lacrada
✅ Evite beber água da torneira do avião
✅ Evite café ou chá feitos com água do tanque
✅ Use álcool gel em vez de lavar as mãos com água da pia
✅ Para higiene bucal, use água mineral
No fim, talvez o maior valor desse relatório seja lembrar algo que, dentro da segurança dos alimentos, nunca deveria ser esquecido: a água também é alimento. E enquanto ela continuar sendo tratada como um detalhe operacional, e não como um ponto crítico de controle, continuaremos descobrindo riscos justamente onde menos esperamos, até mesmo a 35 mil pés de altitude.
Center for Food as Medicine & Longevity — Airline Water Study 2026
FAQ oficial da regra ADWR