Adeus sachês no Food Service? O que diz o novo Regulamento (UE) 2025/40?

Adeus sachês no Food Service? O que diz o novo Regulamento (UE) 2025/40?

A Europa vai proibir sachês e embalagens descartáveis no food service: o que diz o novo Regulamento (UE) 2025/40?

A União Europeia publicou recentemente um dos marcos regulatórios mais ambiciosos das últimas décadas para enfrentamento do lixo gerado por embalagens. Trata-se do Regulamento (UE) 2025/40, conhecido como Packaging and Packaging Waste Regulation (PPWR), que redefine as regras para produção, uso e descarte de embalagens em todo o mercado europeu.

Nos últimos meses, a norma ganhou visibilidade principalmente pela futura proibição de sachês individuais de condimentos em restaurantes. Porém, reduzir a discussão a isso seria um erro: o PPWR representa uma transformação estrutural muito mais ampla, atingindo desde embalagens de transporte e comércio eletrônico até exigências obrigatórias de reutilização e reciclabilidade.

O objetivo da União Europeia é claro: enfrentar o aumento contínuo do lixo gerado por embalagens e acelerar a transição para uma economia circular.

A Comissão Europeia resume a diretriz como um pacote que combina restrições a formatos descartáveis, metas de redução e novos requisitos de sustentabilidade para todo o ciclo de vida das embalagens.

Esse movimento representa um novo paradigma: reduzir o desperdício na origem, antes mesmo da etapa de reciclagem, alinhando a legislação de embalagens aos objetivos climáticos e de economia circular da União Europeia.

 

O problema central: embalagens se tornaram um dos maiores fluxos de resíduos da Europa

O regulamento surge em resposta a um cenário preocupante.

De acordo com dados oficiais do Eurostat, em 2023 a União Europeia gerou cerca de:

  • 79,7 milhões de toneladas de resíduos de embalagens
  • o equivalente a 177,8 kg por habitante em apenas um ano

Ou seja: cada cidadão europeu produz, em média, quase 180 kg anuais de embalagens descartadas.

Embora parte desse material seja reciclado, o volume total continua elevado e muitos formatos, especialmente plásticos pequenos e multicamadas, apresentam baixíssima taxa de recuperação.

Esse é um dos motivos pelos quais o PPWR vai além da reciclagem e passa a atacar o problema na origem: reduzir o uso de embalagens desnecessárias.

Sabemos que muitos países da Europa são referencias quando o assunto é redução do uso de embalagens, economia circular e reciclagem eficiente. Imaginemos então esse cenário em países como EUA e até mesmo o Brasil.

 

Um novo regulamento para reduzir embalagens em toda a economia

O Regulamento (UE) 2025/40 foi aprovado em dezembro de 2024 e publicado no Jornal Oficial da União Europeia em janeiro de 2025. Seu objetivo principal é enfrentar o crescimento contínuo dos resíduos de embalagens no continente, harmonizando regras entre os países-membros e impondo requisitos obrigatórios de redução, reutilização e reciclagem.

Entre os objetivos centrais do regulamento estão a prevenção de embalagens desnecessárias, o incentivo a sistemas reutilizáveis e a contribuição para a meta europeia de neutralidade climática até 2050. A própria Comissão Europeia destaca que a norma introduz restrições específicas a formatos de uso único e exige mudanças estruturais no setor de alimentos e bebidas.

Entre os pontos centrais estão:

  • metas obrigatórias de redução de embalagens
  • requisitos de reciclabilidade até 2030
  • aumento de conteúdo reciclado mínimo em plásticos
  • proibições e restrições a formatos de uso único
  • exigências de rotulagem e rastreabilidade
  • controle de substâncias de preocupação (como PFAS)

Esse conjunto evidencia que o foco não é apenas o food service, mas todo o sistema de embalagens.

Quando a norma começa a valer?

Um ponto crítico para empresas e serviços de alimentação é entender o cronograma.

O Regulamento (UE) 2025/40 entrou em vigor formalmente em 2025, mas sua aplicação prática começa em etapas. Análises jurídicas e documentos institucionais confirmam que o regulamento passa a ser amplamente aplicável a partir de:

12 de agosto de 2026: Essa data marca o início das obrigações gerais do PPWR, substituindo gradualmente a antiga Diretiva 94/62/CE.

Já as restrições mais diretas sobre embalagens descartáveis específicas, como sachês e porções individuais no food service, passam a valer a partir de: 1º de janeiro de 2030

 

Não são apenas sachês: quais embalagens serão proibidas?

O regulamento ganhou destaque na mídia pela proibição de sachês monodose (ketchup, maionese, açúcar), mas o texto é mais amplo.

De acordo com a Comissão Europeia e análises técnicas, haverá restrição de embalagens plásticas de uso único em diversos formatos, incluindo:

  • embalagens agrupadas (como embalagens utilizadas no ponto de venda para agrupar produtos vendidos em garrafas, latas, etc.);
  • Embalagem para frutas e vegetais frescos não processados ​​com menos de 1,5 kg;
  • Embalagens (como bandejas, pratos e copos descartáveis, sacolas, caixas) para alimentos e bebidas consumidos no local em hotéis, restaurantes e outros estabelecimentos de alimentação;
  • Embalagens para condimentos, conservas, molhos, creme de café, açúcar e temperos (como sachês, potes, bandejas e caixas);
  • Embalagens para cosméticos, produtos de higiene e artigos de toalete destinados ao uso no setor de hospedagem (como frascos de xampu); e
  • Sacolas plásticas muito leves.

O regulamento estabelece que embalagens consideradas evitáveis ou desnecessárias serão progressivamente banidas.

Ou seja: trata-se de um pacote legislativo para eliminar formatos de conveniência que geram alto volume de resíduos e baixo valor de reciclagem.

 

Por que a UE tomou essa decisão?

A justificativa da União Europeia se apoia em três pilares principais:

Primeiro: a geração de resíduos de embalagens segue alta, mesmo com políticas de reciclagem.

Segundo: certos formatos (como sachês) não são reciclados na prática, tornando-se resíduos inevitáveis.

Terceiro: o modelo atual de embalagem favorece conveniência, mas produz enormes volumes descartáveis.

A legislação busca romper esse ciclo com metas e proibições progressivas, além de obrigar que todas as embalagens sejam recicláveis.

 

E no setor de alimentos? Quando sustentabilidade encontra Food Safety

O setor de alimentação talvez seja um dos mais diretamente afetados, porque embalagens de porção individual são extremamente comuns em restaurantes, redes de fast food, cafeterias, catering e hotelaria.

A substituição esperada envolve:

  • dispensers coletivos para molhos e condimentos
  • sistemas de refil controlado
  • embalagens reutilizáveis padronizadas
  • maior responsabilidade do operador do serviço de alimentação

Aqui surge um ponto fundamental para profissionais de Food Safety: a embalagem individual não é apenas um item ambiental, ela também é uma barreira sanitária.

 

Segurança dos alimentos: retirar sachês pode aumentar riscos?

Do ponto de vista da segurança dos alimentos, os sachês individuais têm vantagens claras:

  • reduzem risco de contaminação cruzada
  • evitam manipulação repetida por múltiplos consumidores
  • facilitam controle de validade e rastreabilidade
  • minimizam exposição ambiental do alimento

Ao migrar para recipientes coletivos (bisnagas, potes, dispensers), alguns riscos precisam ser considerados:

  1. Contaminação por contato múltiplo: consumidores manipulando o mesmo recipiente aumentam risco de transmissão microbiológica.
  2. Higienização inadequada: dispensers precisam de limpeza e sanitização programada, com POPs claros.
  3. Controle de tempo e temperatura: molhos e condimentos podem precisar de temperaturas controladas dependendo da formulação, exigindo controle rigoroso.
  4. Fraudes e reenchimento sem controle: sistemas de refil podem abrir espaço para adulteração ou perda de rastreabilidade.

Portanto, a transição exige que empresas reforcem programas de Boas Práticas, padronização, treinamentos e auditorias internas.

 

Um novo paradigma: economia circular com controle sanitário

O PPWR representa um caminho inevitável para serviços de alimentação: sistemas reutilizáveis e modelos de refil devem crescer rapidamente.

Mas o desafio é garantir que: reduzir plástico e embalagens descartáveis não signifique aumentar riscos microbiológicos.

Esse será um campo importante de inovação: embalagens reutilizáveis seguras, dispensers sanitários, design higiênico e auditorias adaptadas ao novo cenário regulatório europeu.

 

Oportunidade para inovação e cultura de segurança

Apesar dos desafios, o PPWR representa também uma oportunidade para o setor alimentar:

  • redesenhar processos de serviço com foco em sustentabilidade
  • integrar segurança e meio ambiente em um mesmo sistema
  • investir em embalagens reutilizáveis seguras e rastreáveis
  • fortalecer a cultura organizacional para controle sanitário em novos formatos

O futuro aponta para soluções em que sustentabilidade não pode ser construída à custa da segurança dos alimentos e vice-versa.

O Regulamento (UE) 2025/40 marca o início de uma nova era para embalagens na Europa. A retirada de sachês é apenas uma parte visível de um movimento muito maior: a eliminação progressiva de embalagens descartáveis consideradas evitáveis.

Para o setor de alimentos, o impacto será profundo: mudanças no food service, no varejo, na logística e na forma como o consumidor acessa condimentos e porções.

Para profissionais de Food Safety, o tema não deve ser tratado apenas como tendência ambiental, mas como uma mudança operacional que exigirá revisão de práticas sanitárias, controles e cultura organizacional.

O desafio agora é garantir que a transição para recipientes coletivos e sistemas reutilizáveis ocorra com o mesmo nível de controle microbiológico e segurança que o consumidor espera.

O marketing molda o que comemos

Referências 

  • Regulamento (UE) 2025/40 – Packaging and Packaging Waste Regulation
  • Resumo oficial EUR-Lex: Packaging and packaging waste (from 2026)
  • Comissão Europeia – Packaging Waste e restrição a sachês
  • Food Safety Magazine – proibição no setor HORECA a partir de 2030

 

Como sustentar hábitos seguros no longo prazo

Keli Lima
Keli Lima

CEO da BR Quality e Estilo Food Safety, especialista em Qualidade e Segurança dos Alimentos. Atua como consultora, mentora e auditora líder em normas de Food Safety e ESG.