Arsênio em doces infantis

Arsênio em doces infantis: o que os testes da Flórida revelam sobre contaminantes, saúde e segurança dos alimentos

O consumo de doces faz parte da rotina alimentar de milhões de crianças em todo o mundo. Balas, chocolates, gummies e produtos açucarados são frequentemente associados a celebrações, recompensas e momentos de lazer.

Eu, sempre falo em meus treinamentos e para minha família que existem alimentos que devemos consumir para alimentar nosso corpo, para trazer saúde e existem alimentos que alimentam lembranças, comemorações, que são afetivos e é neste ponto que entram as sobremesas, os doces e até bebidas alcoólicas. Acredito que o equilíbrio é fundamental em qualquer esfera da vida.

Agora, indiferente se o alimento é saudável ou não, todos precisam ser seguros. O consumo consciente envolve a decisão individual de acordo com a comunicação do produtor com o consumidor através da embalagem e das mídias e o conhecimento do consumidor, já a segurança, independe destes fatores, não é questão de escolha.

Esse texto não é sobre discutir o consumo ou não dos doces, mas sim, sobre informação para um consumo consciente e esse é o trabalho que o governador da Flórida está fazendo, realizando análises em diferentes tipos de alimentos, iniciando pela alimentação infantil e divulgando os resultados, sem cancelamento, sem proibição, apenas divulgando os resultados e levando orientações claras sobre o consumo.

As evidências científicas mostram que os coloridos doces infantis podem representar riscos muito mais amplos do que apenas excesso de açúcar.

Em janeiro de 2026, o governo da Flórida divulgou oficialmente os resultados de uma investigação inédita sobre a presença de arsênio em doces populares amplamente consumidos por crianças, como parte da iniciativa estadual Healthy Florida First. Os dados chamaram atenção porque, além da detecção do contaminante, foi publicada uma estimativa de consumo considerado “seguro” para cada produto avaliado.

Essa publicação reacende uma discussão global: quais contaminantes podem estar presentes em alimentos ultraprocessados direcionados ao público infantil? E quais são os impactos acumulativos desses compostos no desenvolvimento infantil?

O que a Flórida encontrou: arsênio detectado em doces consumidos por crianças

Segundo o comunicado oficial do gabinete do governador, o Departamento de Saúde da Flórida analisou 46 doces de 10 empresas diferentes. Os resultados indicaram que o arsênio foi detectado em 28 desses produtos, motivando uma avaliação de risco especialmente voltada ao público infantil, considerado mais vulnerável (FL DOH, 2026).

O relatório também apresentou uma tabela com estimativas de consumo anual seguro para crianças e adultos, com base nos níveis encontrados.

A intenção declarada foi fornecer informações acessíveis às famílias e aumentar a transparência sobre produtos consumidos amplamente por crianças no estado.

 

Arsênio: por que esse contaminante preocupa?

O arsênio é um elemento naturalmente presente no solo e na água, mas também pode ser introduzido na cadeia alimentar por atividades industriais, pesticidas e contaminação ambiental.

O grande problema é que o arsênio inorgânico é considerado altamente tóxico e carcinogênico, com associação robusta a múltiplos efeitos adversos à saúde humana.

A Organização Mundial da Saúde descreve que a exposição prolongada ao arsênio pode estar relacionada ao aumento do risco de:

  • câncer de pulmão, pele, rim e bexiga
  • alterações cutâneas
  • doenças cardiovasculares
  • impactos neurocognitivos

 

Por que crianças são mais vulneráveis ao arsênio?

A infância é um período crítico de desenvolvimento neurológico, metabólico e imunológico. Quando contaminantes químicos estão presentes na dieta, mesmo em baixas concentrações, o impacto proporcional pode ser maior por diversos motivos:

  • menor peso corporal
  • maior consumo relativo de alimentos por quilo
  • sistemas orgânicos em formação
  • maior sensibilidade do cérebro em desenvolvimento

A própria FDA reconhece que contaminantes ambientais afetam mais intensamente bebês e crianças pequenas, o que motivou programas específicos para redução de exposição alimentar.

 

Existe um “limite seguro” diário para arsênio?

A legislação brasileira estabelece os limites de contaminantes em alimentos e traz o Arsêncio em sua relação, sendo que para Balas, caramelos e similares, incluindo gomas de mascar, o limite máximo tolerado (que pode estar presente no produto) é de 0,10 mg/kg do produto, enquanto para chocolate o limite é de:

  • Chocolates e produtos à base de cacau com mais de 40% de cacau: 0,40 mg/kg e
  • Chocolates e produtos à base de cacau com menos de 40% de cacau: 0,20 mg/kg

 

Doces são apenas o início: riscos além do arsênio

Embora o arsênio tenha sido o foco do estudo da Flórida, a discussão sobre doces infantis deve incluir outros perigos amplamente documentados.

  1. Excesso de açúcar e obesidade infantil

O consumo regular de doces está diretamente associado ao aumento de:

  • obesidade
  • resistência à insulina
  • diabetes tipo 2 precoce
  1. Cáries e impacto odontológico

Doces são um dos principais fatores associados à cárie dentária infantil, ainda uma das doenças crônicas mais comuns do mundo.

  1. Alimentos ultraprocessados e saúde metabólica

A literatura científica tem reforçado que alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, gordura e aditivos, estão associados a:

  • inflamação crônica
  • alterações na microbiota intestinal
  • maior risco cardiovascular futuro
  1. Exposição múltipla a contaminantes

O arsênio raramente aparece sozinho. Avaliações ambientais frequentemente incluem também:

  • chumbo
  • cádmio
  • mercúrio

A FDA mantém programas ativos para redução desses contaminantes em alimentos infantis.

 

O que essa iniciativa representa para a segurança dos alimentos?

A publicação do governo da Flórida é um marco importante porque introduz um modelo de comunicação direta com consumidores, apresentando:

  • resultados laboratoriais públicos
  • contaminantes detectados
  • estimativas práticas de consumo

Isso reforça a necessidade de políticas modernas de vigilância e comunicação para que os consumidores façam escolhas cada vez mais conscientes.

 

Orientações para famílias e profissionais de Food Safety

Embora o objetivo não seja gerar pânico, os dados reforçam pontos essenciais:

  • doces devem ser consumo ocasional, não cotidiano (não devem fazer parte da lancheira das crianças)
  • crianças são grupo prioritário em políticas de contaminantes
  • exposição a metais pesados é cumulativa
  • transparência e controle industrial são indispensáveis

A segurança dos alimentos precisa ir além dos perigos microbiológico: metais pesados, contaminantes ambientais e riscos crônicos devem estar no centro das estratégias modernas de proteção à saúde pública.

Referências:

  • Florida Releases Candy Testing Results – Healthy Florida First Initiative
  • Candy Testing Results – Exposing Food Toxins
  • WHO – Arsenic: A Major Public Health Concern
  • FDA – Closer to Zero (Reducing Childhood Exposure)
  • JECFA – Benchmark Dose e retirada do PTWI
  • FDA – Arsenic in Food
  • ANVISA – Instrução Normativa – IN nº 160/2022 (alterada)

Fonte da imagem: Imagem gerada por IA.

Keli Lima
Keli Lima

CEO da BR Quality e Estilo Food Safety, especialista em Qualidade e Segurança dos Alimentos. Atua como consultora, mentora e auditora líder em normas de Food Safety e ESG.