IA na Segurança dos alimentos

FAO: A supervisão humana continua sendo fundamental no uso da IA ​​para a previsão da segurança dos alimentos

A FAO reforça que as ferramentas digitais são poderosas aliadas, desde que guiadas por especialistas. O que isso significa para quem gerencia programas de food safety na prática?

Em dezembro de 2025, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) realizou um webinar global dedicado ao uso de inteligência artificial na antecipação de riscos alimentares. A mensagem central foi clara e vale para todo profissional da área: a IA amplia nossa capacidade analítica, mas a supervisão humana continua sendo insubstituível.

IA na Segurança dos Alimentos: uma parceria com o ser humano, não uma substituição

Vivemos um momento de aceleração tecnológica sem precedentes. Algoritmos de aprendizado de máquina, modelos preditivos e ferramentas de processamento de linguagem natural chegaram às mesas dos departamentos de qualidade e segurança dos alimentos não como promessa futura, mas como realidade operacional. Ao mesmo tempo, órgãos internacionais como a FAO têm publicado orientações detalhadas sobre como adotar essas tecnologias de forma responsável, transparente e eficaz.

Este artigo reúne os principais aprendizados do programa de foresight de segurança dos alimentos da FAO, complementado por publicações científicas recentes, para ajudar profissionais e gestores de programas de food safety a entender onde a IA já está sendo usada, o que ela pode oferecer e quais são os seus limites reais.

O que é foresight em segurança dos alimentos?

Antes de entrar no papel da IA, é importante entender o conceito de foresight (antecipação ou prospecção). Trata-se de um conjunto de técnicas prospectivas que apoiam tomadores de decisão a planejar o futuro com base em tendências emergentes, não apenas em ocorrências passadas. No contexto da segurança dos alimentos, significa identificar riscos que ainda não causaram incidentes significativos, mas que têm potencial de fazê-lo.

O documento Food Safety Foresight: Approaches to Identify Future Food Safety Issues, publicado pela FAO com apoio da União Europeia, reúne as melhores práticas e princípios orientadores de especialistas de governos, organizações internacionais, institutos de pesquisa e setor privado. O objetivo é fortalecer a colaboração global para antecipar riscos alimentares de médio e longo prazo.

Entre os principais motores de mudança identificados estão: as mudanças climáticas, a expansão do comércio global, a urbanização, novos sistemas de produção alimentar, novas tecnologias e instabilidade geopolítica.

A IA como ferramenta de antecipação: o que a ciência já mostra

Um relatório técnico conjunto da FAO com a Wageningen Food Safety Research, publicado em outubro de 2025, analisou 141 publicações científicas recentes e mapeou as principais aplicações de IA na segurança dos alimentos. Os resultados revelam um campo em expansão acelerada, com casos concretos em três grandes frentes:

01 Assessoria científica: Detecção de patógenos, modelagem de risco microbiológico, análise de surtos e processamento de grandes volumes de literatura científica.

02 Inspeção e controle de fronteiras: Priorização de amostras de importação, detecção de materiais estranhos por visão computacional e verificação de rotulagem por modelos de linguagem.

03 Gestão regulatória: Automação de processos de autoridades competentes, vigilância em tempo real e identificação precoce de tendências emergentes.

O relatório destaca que a IA já é parte da gestão de segurança dos alimentos, como afirmou Markus Lipp, Oficial Sênior de Segurança dos Alimentos da FAO. Quando usada de forma responsável, ela tem o potencial de tornar os sistemas mais proativos e inclusivos. No entanto, o documento é enfático: a IA não pode substituir a supervisão humana. A base de qualquer aplicação bem-sucedida continua sendo dados de qualidade, boa governança e ciência sólida.

“A IA é como a meteorologia moderna: processa vastos volumes de dados para estimar probabilidades de riscos futuros. Mas previsão em segurança dos alimentos é ciência e arte. Modelos precisam ser treinados, validados e recalibrados continuamente e sempre com especialistas no controle. — Nikos Manouselis, Food Science and Technology / Oxford Academic, 2025

A colaboração entre setores: onde o valor real acontece

Um dos destaques do webinar da FAO foi a apresentação de Nicola King, do Instituto de Saúde Pública e Ciência Forense, sobre os benefícios concretos quando as atividades de foresight se tornam colaborativas entre os setores público, privado e acadêmico. Quatro resultados positivos foram identificados:

  • Tomada de decisão mais robusta: perspectivas diversas ampliam o horizonte de análise e reduzem pontos cegos institucionais.
  • Conforto com a incerteza: discussões abertas sobre o que ainda não se sabe criam uma cultura organizacional mais preparada para lidar com o inesperado.
  • Aprendizado coletivo: organizações que compartilham conhecimento reduzem a probabilidade de surpresas futuras e conseguem agir de forma proativa antes que problemas escalem.
  • Responsabilidade compartilhada: o processo reforça que a segurança dos alimentos é uma responsabilidade coletiva, incidentes que afetam um ator têm consequências que se espalham por toda a cadeia.

Esta perspectiva é especialmente relevante para empresas brasileiras, onde a fragmentação entre departamentos de qualidade, operações, compras e logística ainda é um obstáculo significativo à eficácia dos programas de segurança dos alimentos.

O contexto humanitário e os países em desenvolvimento

Francesco Mascherpa, do Programa Mundial de Alimentos (PMA), apresentou uma perspectiva fundamental: em contextos de emergência humanitária e em países de baixa e média renda, as lacunas de dados são ainda mais pronunciadas. Cadeias de suprimento de emergência têm complexidades únicas, e os recursos disponíveis para gestão da segurança dos alimentos são frequentemente limitados.

O PMA adota uma abordagem em três camadas:

  1. análise de causas raiz de incidentes passados;
  2. sistemas de alerta precoce baseados em dados internos; e
  3. foresightde médio prazo para antecipar mudanças regulatórias e desafios futuros.

Esta arquitetura: passado, futuro próximo e médio prazo é um modelo replicável para qualquer programa de gestão de food safety.

Abordagem regulatória: lições da Agência Canadense de Inspeção de Alimentos

A apresentação da Agência Canadense de Inspeção de Alimentos (CFIA) ilustrou como uma abordagem em três níveis pode estruturar a gestão de riscos emergentes:

  • Identificação: novos perigos detectados por vigilância e monitoramento contínuos, como surtos ligados a alimentos não convencionais.
  • Compreensão: análise de causa raiz para desenvolvimento de intervenções direcionadas e metodologias analíticas avançadas, como o sequenciamento de genoma completo (WGS).
  • Antecipação: colaboração interagências, compartilhamento de informações e uso de tecnologias avançadas como programas de amostragem direcionada.

Este modelo reforça que a IA não opera no vácuo: ela potencializa cada uma dessas camadas, mas depende da qualidade do dado que entra, da consistência dos processos que o geram e da competência do especialista que interpreta os resultados.

O caso Danone: começando com o básico

Aaron O’Sullivan, da Danone, apresentou um dos exemplos mais práticos do webinar. O processo de antecipação de riscos da empresa integra três etapas:

  1. Análise (antecipação de riscos)
  2. Planejamento/execução (gestão de riscos)
  3. Verificação/ação (controle de risco).

Mas a mensagem para quem está começando essa jornada foi clara:

Para quem está iniciando em foresight, ferramentas digitais avançadas não são requisito. O essencial é estruturar um processo robusto de identificação de fontes relevantes de informação. A tecnologia amplifica um bom processo; ela não cria um processo bom a partir do nada.

Isso vale também no sentido inverso: a supervisão especializada humana permanece central para interpretar dados e tomar decisões mesmo quando algoritmos estão envolvidos.

O que isso significa para a gestão de programas de food safety no Brasil

Para os profissionais que gerenciam programas de segurança dos alimentos no dia a dia, seja em indústrias de alimentos, distribuidores ou serviços de alimentação, as orientações da FAO têm implicações muito concretas:

  • A digitalização dos processos de qualidade não é mais diferencial competitivo, está se tornando requisito de base para operações eficazes e conformes.
  • A qualidade dos dados que alimentamos nos sistemas é o fator mais crítico. Planilhas inconsistentes, registros manuais fragmentados e ausência de padronização inviabilizam qualquer análise avançada.
  • A literacia em IA é uma competência emergente para gestores de food safety. Entender o que essas ferramentas fazem e o que não fazem é fundamental para usá-las responsavelmente.
  • O modelo de inovação aberta, defendido pela FAO, aponta para um cenário em que sistemas colaborativos e interoperáveis serão mais valiosos que soluções proprietárias fechadas.
  • A supervisão humana especializada não é obstáculo à inovação é sua garantia de efetividade. Algoritmos geram previsões; especialistas fornecem contexto, interpretação e ação.

Investir em literacia em IA é essencial. Somente quando as pessoas entendem o que essas ferramentas podem e não podem fazer, elas conseguem fazer escolhas informadas sobre como usá-las de forma responsável na segurança dos alimentos. – Floor van Meer, Wageningen Food Safety Research / FAO, 2025

Olhando para frente

Estamos em um ponto de inflexão. A questão já não é se a IA vai transformar a gestão da segurança dos alimentos, ela já está transformando e precisa. A questão é se as organizações estão preparadas para fazer essa transição de forma estruturada, ética e eficaz.

Os profissionais que saírem na frente serão aqueles que construírem hoje as bases necessárias: dados organizados e confiáveis, processos padronizados, equipes com capacidade crítica para trabalhar junto às ferramentas digitais e uma cultura organizacional onde a segurança dos alimentos é responsabilidade de todos, não apenas do departamento de qualidade.

A FAO não poderia ser mais clara: o futuro da segurança dos alimentos é uma parceria entre inteligência humana e inteligência artificial. Nenhuma das duas, isolada, será suficiente.

Conte com ferramentas que respeitam esse equilíbrio

Estamos desenvolvendo sistemas de gestão de programas de segurança dos alimentos que colocam o especialista no centro, com tecnologia que amplifica o seu conhecimento, não que tenta substituí-lo. Em breve, compartilharemos mais sobre essas ferramentas. Fique atento às novidades.

Se quiser saber mais, fale com nossa equipe.

 

Referências

  1. FAO. (2025). Food Safety Foresight: Approaches to Identify Future Food Safety Issues. Roma: FAO. https://doi.org/10.4060/cd6798en
  2. van Meer, F., van der Velden, B. & Takeuchi, M. (2025). Artificial intelligence for food safety – A literature synthesis, real-world applications and regulatory frameworks. FAO / Wageningen Food Safety Research. https://doi.org/10.4060/cd7242en
  3. Food Safety Magazine. (Jan. 2026). FAO: Human Oversight Remains Critical in Using AI for Food Safety Foresight. food-safety.com
  4. FAO. (Out. 2025). AI for food safety: FAO publication highlights real-world applications and regulatory considerations. fao.org
  5. FAO Science and Innovation Forum 2025. AI Meets Food Safety – Deep Dive Session. fao.org
  6. Manouselis, N. (2025). AI in food safety. Food Science and Technology, 39(4), 44–47. https://doi.org/10.1093/foodst/vwaf061
  7. FoodTimes. (Nov. 2025). AI for food safety: the FAO report. foodtimes.eu

 

Keli Lima
Keli Lima

CEO da BR Quality e Estilo Food Safety, especialista em Qualidade e Segurança dos Alimentos. Atua como consultora, mentora e auditora líder em normas de Food Safety e ESG.