Surto de ciclosporíase nos EUA

Surto de ciclosporíase nos EUA: o que se sabe sobre a “diarreia explosiva” que já passa de 3 mil casos

Os Estados Unidos enfrentam, neste verão de 2026, um dos maiores surtos de ciclosporíase já registrados no país. A doença, causada pelo parasita Cyclospora cayetanensis, provoca diarreia aquosa e intensa, descrita por médicos e pacientes como “explosiva”  e já soma milhares de casos confirmados em dezenas de estados americanos. As autoridades sanitárias ainda não identificaram com certeza a origem da contaminação, mas as investigações apontam para alface e folhas verdes como possíveis vetores.

Neste artigo, reunimos as informações mais recentes sobre o surto, explicamos o que é o parasita, como ele contamina os alimentos e o que fazer para se proteger.

O tamanho do surto

Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), até 13 de julho de 2026 haviam sido confirmados 1645 casos de ciclosporíase adquirida dentro do país, distribuídos por 34 estados e 141 hospitalizações.

Esses números, no entanto, ficam muito abaixo da realidade relatada pelos próprios estados, um reflexo do atraso estrutural na consolidação de dados pelo CDC. Somente o estado de Michigan já havia contabilizado 2.640 casos até 13 de julho, incluindo 44 hospitalizações, tornando-se o epicentro do surto. Ohio somava 361 casos desde 1º de junho, com pelo menos 46 hospitalizações, enquanto Nova York registrava 470 casos e outros estados, como Illinois e Texas, também emitiram alertas sanitários. Somando Michigan e Ohio, o total já ultrapassa 3 mil pessoas afetadas.

Para dimensionar a gravidade do episódio: Michigan costuma registrar cerca de 50 casos de ciclosporíase por ano. O número atual representa mais de 50 vezes a média histórica do estado  e já supera o total de casos de toda a temporada de 2025 no país inteiro, quando os EUA registraram aproximadamente 2.700 casos.

A maior parte das notificações concentra-se a partir de maio e junho de 2026, período que coincide com o clima quente e úmido, condição que favorece a maturação do parasita no ambiente.

Pontos principais destacados no comunicado do CDC

  • O CDC está ciente de que os estados provavelmente relatam um número maior de casos de ciclosporíase do que o refletido nos dados do CDC e está trabalhando em estreita colaboração com os estados para atualizar os números à medida que novos casos forem confirmados. Desde 1º de maio de 2026, o CDC recebeu relatos de 1.645 casos confirmados de ciclosporíase adquiridos localmente e tem conhecimento de mais de 5.100 casos que requerem análise adicional para confirmar a doença como ciclosporíase adquirida localmente. Até o momento, neste ano, vários estados relataram um aumento no número de casos em comparação com o mesmo período de 2025.
  • O CDC e seus parceiros estaduais e federais estão trabalhando em conjunto para investigar diversos surtos de ciclosporíase. As investigações para identificar e confirmar as fontes dos surtos estão em andamento.
  • Regularmente, o CDC divulga todos os casos confirmados em laboratório que recebe dos estados. Os dados estaduais podem incluir casos prováveis ​​e confirmados, o que, por sua vez, provavelmente reflete um número de casos maior do que os dados de vigilância do CDC, pois os relatórios iniciais de casos ainda não foram notificados ao CDC. As atualizações de vigilância do CDC não incluem casos prováveis.
  • O número real de pessoas doentes com ciclosporíase provavelmente é maior do que o número relatado. Isso ocorre porque algumas pessoas se recuperam sem atendimento médico e não são testadas para Cyclospora.

Para saber a atualização diária destes dados é importante acompanhar na página oficial do CDC. 

Alface e folhas verdes sob suspeita

As autoridades de saúde de Michigan afirmaram que alface ou misturas de folhas verdes (“salad greens”) aparecem repetidamente como produto em comum entre os casos investigados, mas ainda não foi possível identificar o tipo específico, o produtor ou o fornecedor responsável e outros alimentos não foram descartados. A Dra. Natasha Bagdasarian, diretora médica-chefe de Michigan, declarou que as informações preliminares indicam a alface como item recorrente nas entrevistas com pacientes, mas reforçou que a investigação continua em aberto.

Relatos anteriores, baseados em comunicações internas entre o CDC e outras agências de saúde, indicam que a agência federal já investigava aglomerados de casos ligados a restaurantes de estilo mexicano, uma rede de supermercados e um evento com serviço de bufê. Paralelamente, a rede de resposta a surtos da FDA (CORE) conduz investigações de rastreabilidade envolvendo cebolas brancas e verdes, pepinos e coentro, itens historicamente associados a surtos do parasita.

Até o momento, a FDA incluiu apenas duas investigações de surto por Cyclospora em sua tabela oficial (uma com sete casos e outra com 18), e nenhuma delas teve uma fonte alimentar confirmada.

Michigan recomendou que os consumidores prefiram cabeças inteiras de alface em vez de alface pré-lavada em saco ou kits de salada prontos, já que folhas processadas e misturadas aumentam o risco de contaminação cruzada.

Corte na vigilância nacional dificulta o rastreamento

Um fator que agrava a dificuldade de identificar a origem do surto é uma mudança na vigilância epidemiológica dos EUA. Até 1º de julho de 2025, a rede FoodNet, um esforço conjunto do CDC, da FDA, do Departamento de Agricultura (USDA) e de dez departamentos estaduais de saúde, monitorava oito patógenos de origem alimentar, entre eles a Cyclospora. Desde então, o programa passou a acompanhar oficialmente apenas dois patógenos (Salmonella e uma cepa de E. coli), deixando o monitoramento dos demais, incluindo a Cyclospora, como opcional para os estados.

A ciclosporíase continua sendo uma doença de notificação obrigatória nos EUA, ou seja, os casos confirmados ainda precisam ser reportados às autoridades estaduais e, depois, ao CDC. Mas especialistas em segurança dos alimentos já haviam alertado, à época do corte, que a medida comprometeria a capacidade de identificar precocemente aumentos de casos e dificultaria a resposta a surtos.

O ex-diretor do CDC, Dr. Robert Redfield, comentou publicamente que cortar esses programas de vigilância não atende aos interesses do país, já que a vigilância epidemiológica é fundamental para a identificação precoce de surtos.

Por que a Cyclospora é tão difícil de rastrear

Diferentemente de bactérias como Salmonella e E. coli, a Cyclospora cayetanensis não pode ser cultivada em laboratório por métodos convencionais, o que torna sua identificação mais lenta e trabalhosa. A microbiologista Jennifer McEntire, fundadora da consultoria Food Safety Strategies, comparou a diferença de complexidade entre rastrear patógenos bacterianos e a Cyclospora à diferença entre ler um livro infantil e ler “Guerra e Paz”.

Outro obstáculo é biológico: o parasita é eliminado de forma intermitente nas fezes, o que significa que uma pessoa pode precisar de mais de um exame para que a infecção seja detectada. Além disso, o teste específico não faz parte dos painéis padrão de laboratório para problemas gastrointestinais e muitas vezes precisa ser solicitado explicitamente pelo médico, o que atrasa ainda mais o diagnóstico. Some-se a isso o tempo de incubação, que pode chegar a duas semanas e o resultado é que, quando um caso é finalmente confirmado e notificado às autoridades, já se passaram várias semanas desde a exposição original, dificultando enormemente o rastreamento do alimento causador.

O que é a Cyclospora cayetanensis

Cyclospora cayetanensis é um parasita unicelular, esférico e microscópico, descrito pela primeira vez em humanos em 1994. A infecção que ele provoca, a ciclosporíase, é considerada pelo CDC uma “infecção parasitária negligenciada” de importância crescente para a saúde pública, com casos em ascensão desde a década de 1990.

O parasita não se transmite de pessoa para pessoa. A contaminação ocorre quase sempre pela ingestão de alimentos ou água contaminados, geralmente produtos frescos, como framboesas, ervas de folha (como coentro e manjericão), alface, misturas de salada ensacadas e, mais raramente, água de piscinas ou de recreação.

A contaminação começa na lavoura: quando a água usada para irrigar as plantações é contaminada por esgoto humano, por vazamentos de sistemas sépticos, transbordamento de redes de esgoto após chuvas fortes, ou mesmo por trabalhadores rurais sem acesso a banheiros adequados que se aliviam próximo às plantações. No entanto, o oocisto (a forma “de ovo” do parasita) não sai do corpo humano já em estado infeccioso: ele precisa passar dias a semanas em ambiente quente para amadurecer e se tornar capaz de infectar outra pessoa. É por isso que a temporada de casos nos EUA aumenta justamente nos meses mais quentes e úmidos do ano.

Uma vez que o oocisto se deposita em uma planta, ele gruda firmemente à casca ou à superfície da folha e pode sobreviver ali por semanas ou meses, resistindo a processos de triagem, transporte e armazenamento até chegar à mesa do consumidor. Os oocistos também são incomumente resistentes: sobrevivem em solo e água por longos períodos e não são eliminados pelo cloro, o desinfetante mais usado para tratar água de irrigação contra bactérias e vírus. Para eliminar o parasita da água agrícola, são necessárias tecnologias mais sofisticadas e caras, como microfiltração, radiação ultravioleta ou tratamento com ozônio.

Sintomas

Os sintomas costumam começar cerca de uma semana após a ingestão do alimento contaminado, podendo variar de dois dias a duas semanas. Os principais sinais são:

  • Diarreia aquosa frequente e intensa (por vezes descrita como “explosiva”)
  • Perda de apetite
  • Inchaço e cólicas abdominais
  • Gases
  • Náusea e, em alguns casos, vômito
  • Fadiga
  • Febre baixa
  • Perda de peso

Sem tratamento, a diarreia pode persistir por semanas, alternando períodos de melhora e piora. Crianças pequenas, idosos e pessoas imunossuprimidas correm maior risco de complicações. A boa notícia é que a maioria das pessoas saudáveis se recupera, e a infecção responde bem a antibiótico.

Um parasita que já causou surtos no Brasil

Embora o foco atual esteja nos Estados Unidos, o Brasil também já enfrentou episódios de ciclosporíase. O país registrou pelo menos três surtos documentados de infecção por C. cayetanensis, todos associados à contaminação da água. No surto de General Salgado de 2000, foram identificados 350 casos compatíveis com a doença, associados a poços do sistema público de abastecimento de água contaminados por infiltração de esgoto, episódio que exigiu mudanças estruturais no sistema de água e esgoto do município. Estudos posteriores em hospitais brasileiros, como o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, identificaram casos esporádicos da infecção também em pacientes atendidos por outros motivos, reforçando que, embora rara, a Cyclospora circula no país.

O que esperar daqui para frente

Segundo o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA (HHS), é esperado que os casos de ciclosporíase continuem subindo ao longo do verão americano, já que a doença tem sazonalidade típica dos meses quentes. Autoridades federais e estaduais afirmam estar monitorando ativamente a contagem de casos e possíveis aglomerados, na tentativa de identificar o alimento (ou os alimentos) responsáveis pelo surto.

Até a publicação deste artigo, nenhum recall de produto havia sido emitido oficialmente, e algumas redes de restaurantes optaram, de forma voluntária, por retirar temporariamente certos ingredientes frescos de seus cardápios enquanto a investigação avança. Como alertam os especialistas ouvidos pela imprensa americana, a escala e a velocidade de propagação deste surto sugerem que um único produto, amplamente distribuído, pode estar por trás da maior parte dos casos, mas a confirmação definitiva ainda depende da conclusão dos exames laboratoriais e do trabalho de rastreabilidade da cadeia de distribuição de alimentos.

Fontes

Keli Lima
Keli Lima

CEO da BR Quality e Estilo Food Safety, especialista em Qualidade e Segurança dos Alimentos. Atua como consultora, mentora e auditora líder em normas de Food Safety e ESG.

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