A informação sobre açúcares no rótulo pode reduzir o consumo de determinados produtos?
Sim, para os dois produtos analisados e com ressalvas importantes. Em um estudo com dados reais de vendas de supermercados nos Estados Unidos, a exibição obrigatória do açúcar adicionado, em gramas, no rótulo nutricional foi acompanhada de menor demanda pelos iogurtes e biscoitos com mais açúcar adicionado. As simulações do mesmo estudo indicam que, sem a mudança do rótulo, o consumo de açúcar teria sido cerca de 4% maior em iogurtes e 11% maior em biscoitos (Zhang e Liu, 2026).
Este artigo resume o estudo, explica como os números foram obtidos e aponta o que eles permitem, e o que não permitem, concluir.
Ficha do estudo
| Item | Descrição |
| Título | Consumer Demand and Market Response to Added Sugar Labeling: Evidence From the Updated Nutrition Facts Panel |
| Autores | Yuxiang Zhang e Yizao Liu (Pennsylvania State University, EUA) |
| Revista | Agribusiness, 2026, páginas 1 a 18 (acesso aberto) |
| DOI | https://doi.org/10.1002/agr.70145 |
| Dados | NielsenIQ Retail Scanner Data, 2015 a 2020 |
| Produtos | Iogurtes e biscoitos |
| Método | Modelo de escolha discreta com coeficientes aleatórios e simulações contrafactuais |
O que mudou no rótulo
Em maio de 2016, a agência reguladora de alimentos e medicamentos dos EUA (FDA) anunciou mudanças no Painel de Informação Nutricional (NFP, na sigla em inglês) das embalagens. A mais destacada foi a declaração obrigatória do açúcar adicionado, em gramas, como uma linha separada dentro do total de açúcares. Fabricantes com vendas anuais acima de US$ 10 milhões tinham de atualizar os rótulos até 2020, e os menores, até 2021 (Zhang e Liu, 2026).
Antes disso, o consumidor americano via apenas o açúcar total. Era impossível saber, pelo rótulo, quanto vinha de ingredientes como fruta e leite e quanto era adicionado no processamento. Para os autores, essa é a razão pela qual o açúcar adicionado é o alvo das orientações nutricionais federais: ele costuma aparecer em alimentos com pouca fibra, vitaminas, minerais e proteínas (Zhang e Liu, 2026).
Por que este estudo é diferente
Os autores lembram que grande parte da evidência anterior sobre o novo rótulo vem de pesquisas de opinião, experimentos, estudos de rastreamento ocular (eye-tracking) e estimativas epidemiológicas de impacto futuro. Os resultados desses estudos são mistos. Um deles, por exemplo, encontrou que o novo painel atrai mais atenção visual, mas que isso não mudou as compras de bebidas no contexto testado (Zhang e Liu, 2026). O diferencial deste trabalho é observar compras reais, em escala de mercado, durante a transição para o novo rótulo.
Dados e amostra
- Fonte de vendas: NielsenIQ Retail Scanner Data, de 2015 a 2020, com preços e vendas por código de barras (UPC) em mais de 90 redes varejistas dos EUA.
- Mercado: cada mercado é definido por estado, ano e mês.
- Amostra final:528 mercados, com 312 produtos de iogurte de sete grandes marcas e 430 produtos de biscoito de 15 grandes marcas. Essas marcas respondem por cerca de 70% a 80% das vendas de cada categoria no período.
- Informação nutricional: coletada em páginas de fabricantes, bases de varejistas, USDA FoodData Central e Open Food Facts, entre outras fontes.
- Por que iogurte e biscoito: são categorias com perfis diferentes. O iogurte é visto com frequência como produto saudável, enquanto o biscoito é visto como indulgência. Os autores tratam os dois como estudos de caso complementares, e não como extremos de um espectro.
- Controle do tamanho da porção: a revisão do rótulo também alterou porções de referência. Para reduzir essa interferência, a amostra de iogurte foi limitada a embalagens menores que 12 oz, que continuam usando a embalagem inteira como porção.
O açúcar adicionado representa, em média, 67,78% do açúcar total nos iogurtes da amostra (2,01 g/oz) e 97,94% nos biscoitos (9,44 g/oz). Produtos sem açúcar adicionado tendem a ser mais caros em ambas as categorias (Zhang e Liu, 2026, seção 3 e Tabela 1). Os biscoitos sem açúcar adicionado são menos de 1% dos produtos da categoria.
Como o efeito foi estimado
Os autores estimaram, para cada categoria, um modelo de escolha discreta com coeficientes aleatórios, método muito usado em economia para representar como consumidores escolhem entre produtos diferenciados quando preço e características variam. Em termos práticos, o modelo estima quanto cada atributo (preço, açúcar, gordura, proteína, tamanho da embalagem etc.) aumenta ou diminui a chance de um produto ser escolhido.
A ideia central é a seguinte. O açúcar total sempre esteve no rótulo, e o açúcar adicionado só passou a aparecer depois da reforma. Por isso, o modelo inclui o açúcar adicionado apenas multiplicado por um indicador de período pós-mudança, e compara o antes e o depois. O modelo também controla efeitos fixos de marca, ano, mês e estado, e inclui um indicador das ordens de isolamento (shelter-in-place) da pandemia de Covid-19, cada uma com seu calendário estadual. Para tratar a possível correlação entre preço e características não observadas, os autores usam variáveis instrumentais (Zhang e Liu, 2026, seção 4).
Resultados
A demanda por produtos com mais açúcar adicionado diminuiu
Nas duas categorias, a interação entre o período pós-rótulo e o açúcar adicionado foi negativa e estatisticamente significativa (p < 0,01). Isso indica que, depois que o açúcar adicionado passou a ser exibido, os consumidores se afastaram dos produtos com maior teor dele.
| Categoria | Pós-rótulo × açúcar adicionado (coeficiente) |
| Iogurte | −0,3280 |
| Biscoito | −0,1880 |
Fonte: Tabelas 2 e 3 de Zhang e Liu (2026). Os coeficientes são parâmetros de utilidade do modelo, e não variações percentuais de vendas.
Os autores também observam um padrão no açúcar total, que continuou visível antes e depois: a interação pós-rótulo × açúcar total foi positiva (0,3020 no iogurte e 0,2545 no biscoito). A interpretação deles é que, com o açúcar adicionado separado, o açúcar total restante passa a refletir mais o açúcar natural, de ingredientes como fruta e leite, que os consumidores penalizam menos. Eles descrevem isso como uma reavaliação condicional, e não como um aumento da preferência por açúcar em si (Zhang e Liu, 2026).
O efeito foi mais claro no iogurte
Uma tabela do apêndice calcula quantos produtos ficaram “menos mal avaliados” na dimensão açúcar após a mudança, conforme a participação do açúcar adicionado no açúcar total. No iogurte, essa fatia cai de 96,15% nos produtos com menor participação de açúcar adicionado para 30,77% nos de maior participação, e a variação média de utilidade passa a negativa (−0,0534) nesse último grupo. No biscoito, a queda é mais suave, de 73,61% para 58,74%, e a variação média continua positiva.
Os autores leem esse contraste como sinal de que a informação é mais saliente no iogurte, categoria em que as expectativas de saudabilidade são maiores (Zhang e Liu, 2026).
Os resultados resistiram a testes de robustez
Os autores repetiram a estimação com variações do modelo:
- retirando a interação do açúcar adicionado;
- excluindo 2018 e 2019, anos de transição (a aversão ao açúcar adicionado ficou um pouco maior em valor absoluto);
- usando apenas produtos presentes nos três últimos anos (268 iogurtes e 289 biscoitos);
- controlando iogurte natural versus saborizado;
- trocando efeitos fixos de mês por trimestre;
- permitindo efeitos não lineares da participação do açúcar adicionado.
Todos os testes foram qualitativamente consistentes com o resultado principal. Há também um teste de preços: os preços médios variaram pouco entre os períodos (iogurte de US$ 0,18 para US$ 0,19 por onça, biscoito de US$ 0,36 para US$ 0,39), o que, segundo os autores, torna improvável que o efeito venha de ajustes de preço (Tabela A13).
Sem a mudança no rótulo, o consumo de açúcar teria sido maior
Com o modelo estimado, os autores simularam um cenário em que a reforma do rótulo não ocorreu e compararam com o observado.
| Mudança se não houvesse o novo rótulo | Iogurte | Biscoito |
| Volume de vendas, todos os produtos | +2,98% | +9,53% |
| Consumo de açúcar total | +4,43% | +11,41% |
| Consumo de açúcar adicionado | +4,15% | +11,16% |
Fonte: Zhang e Liu (2026).
Ou seja, a reforma do rótulo “evitou” esse consumo adicional no modelo. O efeito simulado é maior nos biscoitos. Os autores explicam que, no iogurte, a demanda por opções com menos açúcar já seria em parte ancorada em preferências prévias, de modo que o rótulo gera um deslocamento incremental moderado. Nos biscoitos, categoria vista como indulgência, a divulgação teria um papel mais central para tornar visíveis as opções com menos açúcar (Zhang e Liu, 2026, seção 5.3.1).
Limitações apontadas pelos autores
- Horizonte curto: o período pós-reforma é relativamente curto, e as estimativas refletem respostas de curto a médio prazo durante a transição, e não um comportamento estabilizado. A amostra termina em 2020 porque a adoção do rótulo foi gradual e porque a NielsenIQ mudou a estrutura dos dados em 2021 (nota 1).
- Duas categorias apenas: os resultados são estudos de caso de iogurte e biscoito, e não evidência sobre classes mais amplas de alimentos.
- Mudanças simultâneas no rótulo: a reforma alterou também o relato de micronutrientes. Os autores interpretam o efeito estimado como um limite superior da resposta ao açúcar adicionado, embora o considerem o canal mais plausível por ser a única informação realmente nova. Por outro lado, a adoção antecipada por alguns fabricantes tende a subestimar o efeito, então a estimativa-base seria um limite inferior em outro aspecto (nota 3).
- Reformulação não observada: o estudo não captura se os fabricantes reduziram o açúcar nos produtos. Se isso ocorreu, o canal da informação e o da mudança do produto atuam na mesma direção, e a conclusão central se mantém.
- Validade dos instrumentos: os testes diagnósticos indicaram instrumentos fortes, mas os autores reconhecem que eles não eliminam todas as dúvidas sobre a validade.
- Covid-19: o indicador de isolamento é um controle parcial das mudanças de comportamento na pandemia.
- Dados fechados: os dados da NielsenIQ não podem ser compartilhados por acordo de confidencialidade, mas podem ser solicitados ao Kilts Center, da University of Chicago Booth School of Business.
Cabe acrescentar uma ressalva de leitura, que é nossa e não dos autores: os resultados são de um contexto específico (EUA, rótulo traseiro e dois produtos). Transpô-los para outros países exige evidência local.
Implicações discutidas no artigo
Os autores concluem que a divulgação obrigatória de atributos nutricionalmente importantes pode mudar o comportamento do consumidor de forma mensurável e recomendam continuar aprimorando a rotulagem nutricional. Também observam que a resposta não é uniforme entre categorias, o que sugere pensar em ferramentas complementares quando o rótulo sozinho não gera a mudança desejada. Por fim, defendem a combinação de informação clara com instrumentos fiscais, por exemplo um imposto direcionado ao açúcar adicionado, que seria mais preciso do que um imposto sobre todo tipo de açúcar (Zhang e Liu, 2026).
A informação sobre açúcares no rótulo pode, sim, reduzir o consumo de determinados produtos: no caso estudado, a separação do açúcar adicionado reduziu a demanda por iogurtes e biscoitos com mais açúcar adicionado e, segundo as simulações, diminuiu o consumo de açúcar nessas categorias. O estudo mostra que a informação funciona em compras reais, mas também que o tamanho do efeito depende do tipo de produto e que o rótulo, sozinho, não esgota o problema.
Referências
- ZHANG, Y.; LIU, Y. Consumer Demand and Market Response to Added Sugar Labeling: Evidence From the Updated Nutrition Facts Panel. Agribusiness, 2026, p. 1-18. DOI: https://doi.org/10.1002/agr.70145.
- PENN STATE NEWS. Labeling foods with added sugar content may reduce demand, consumption. Katie Bohn, 16 out. 2026. https://www.psu.edu/news/agricultural-sciences/story/labeling-foods-added-sugar-content-may-reduce-demand-consumption (comunicado institucional sobre o estudo).


