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Você provavelmente já ouviu que cuidar da saúde bucal vai além de ter um sorriso bonito. Mas e se a gengiva inflamada pudesse, de alguma forma, contribuir para uma ruptura de vaso sanguíneo no cérebro? É exatamente essa pergunta que um grupo de pesquisadores brasileiros passou anos tentando responder e os resultados, publicados em fevereiro de 2025 na revista Clinical Neurology and Neurosurgery, são de causar reflexão.
Um aneurisma intracraniano é uma espécie de “bolsão” que se forma na parede de uma artéria do cérebro, onde o vaso sanguíneo se dilata de forma anormal. A maioria das pessoas que carrega um aneurisma nunca sabe disso, ele pode permanecer silencioso por décadas. O problema é quando esse bolsão se rompe.
A ruptura de um aneurisma cerebral causa hemorragia subaracnóidea, um sangramento no espaço ao redor do cérebro que tem taxas de mortalidade elevadas e pode deixar sequelas graves em quem sobrevive. Apesar dos avanços na medicina, os mecanismos exatos que levam à ruptura ainda são mal compreendidos. É aí que entra a pesquisa.
O estudo, conduzido por Nícollas Nunes Rabelo, Leonardo O. Brenner e colaboradores da Divisão de Neurocirurgia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, partiu de uma hipótese intrigante: infecções bacterianas crônicas, especialmente as oriundas da boca e do intestino podem gerar inflamação sistêmica suficiente para comprometer a parede dos vasos cerebrais.
Para testar isso, a equipe analisou amostras do tecido arterial de 36 pacientes operados por clipagem microcirúrgica de aneurisma. Alguns pacientes tinham aneurismas rompidos (ou seja, já havia ocorrido a ruptura); outros tinham aneurismas íntegros. Usando a técnica de PCR (reação em cadeia da polimerase), os pesquisadores buscaram a presença de DNA de duas bactérias específicas no tecido das artérias:
Os achados foram reveladores:
O DNA de E. coli foi encontrado em 44% das amostras analisadas e sua presença mostrou uma correlação estatisticamente significativa com os casos de aneurismas rompidos, com uma razão de chances (Odds Ratio) de 4,3. Em termos práticos, isso significa que pacientes cujo tecido arterial continha DNA desta bactéria tinham chances consideravelmente maiores de pertencer ao grupo com ruptura.
O DNA de Fusobacterium nucleatum também foi detectado em mais da metade das amostras, mas sua presença não demonstrou correlação estatística significativa com a ruptura dos aneurismas neste estudo.
É importante frisar: encontrar DNA bacteriano em um tecido não é a mesma coisa que encontrar a bactéria viva e ativa. Mas a presença desse material genético sugere que essas bactérias ou fragmentos delas conseguiram cruzar barreiras do organismo e se depositar nas paredes dos vasos sanguíneos do cérebro.
De acordo com o neurocirurgião Nícollas Nunes Rabelo, primeiro autor do estudo, a E. coli normalmente coexiste pacificamente com o organismo humano. No entanto, a pesquisa indica que, em determinados pacientes, a bactéria pode adquirir características patogênicas, desencadeando processos inflamatórios que fragilizam os vasos sanguíneos. As razões exatas para essa mudança de comportamento ainda estão sendo investigadas.
A hipótese central dos pesquisadores é que infecções periodontais crônicas e desequilíbrios na microbiota intestinal (condição conhecida como disbiose) alimentam um estado de inflamação sistêmica persistente. Essa inflamação, por sua vez, poderia modificar o microambiente da parede arterial, tornando-a mais vulnerável à formação e à ruptura de aneurismas.
Como o próprio pesquisador explicou em entrevistas anteriores ao Jornal da USP: “A inflamação modifica o microambiente da cavidade oral, e as bactérias podem então migrar através da circulação sanguínea e se depositar nos vasos sanguíneos do cérebro, promovendo novas respostas inflamatórias e modificando a qualidade da parede do vaso.”
Este trabalho se insere em uma linha crescente de pesquisas que investigam o papel da microbiota, o conjunto de microrganismos que habitam nosso corpo, em doenças cerebrovasculares. Estudos anteriores já haviam identificado DNA de bactérias odontogênicas em amostras de aneurismas rompidos, e pesquisas recentes têm mostrado que pacientes com perfis distintos de microbiota intestinal apresentam diferentes riscos de ruptura.
A periodontite, inflamação crônica das gengivas, já havia sido associada, em outros estudos, ao aneurisma de aorta. A pesquisa da equipe da USP reforça a hipótese de que esse mecanismo pode se repetir nas artérias cerebrais.
Vale destacar que a prevalência de periodontite no Brasil é significativa, dados de 2010 apontavam 15% da população com a doença e ela frequentemente evolui de forma silenciosa, sem dor ou sintomas evidentes.
Os próprios autores destacam que o estudo é de natureza exploratória. Com 36 pacientes, a amostra é pequena para conclusões definitivas. As questões que permanecem em aberto são fundamentais:
As respostas virão com estudos maiores e mais aprofundados. Mas o estudo já abre uma porta promissora: a possibilidade de intervenções preventivas personalizadas, baseadas no perfil microbiológico de cada paciente.
Keli Cristina de Lima Neves é consultora especialista em segurança dos alimentos, fundadora do blog SEMEAR , da BRQuality Consultoria e Laboratório e da Estilo Food Safety.
Contato: keli@brqualityconsultoria.com.br Outros contatos: Instagram:@kelilimaneves Linkedin: Keli Lima Neves
Autores: Nícollas Nunes Rabelo, Leonardo O. Brenner, Antonio Carlos Samaia da Silva Coelho, João Paulo Mota Telles, José Paulo de Oliveira Dourado, David Abraham Batista da Hora, Débora Pallos, Paulo Henrique Braz-Silva, Manoel Jacobsen Teixeira, Eberval Gadelha Figueiredo — Divisão de Neurocirurgia, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina da USP.
Este artigo foi produzido com fins educativos e informativos a partir do resultado de uma pesquisa. Em caso de dúvidas sobre sua saúde bucal, intestinal ou cerebrovascular, consulte sempre um profissional de saúde qualificado.
Fonte da imagem: IA