Flores para os heróis de touca

Flores para os heróis de touca: Valorizando a profissão de segurança dos alimentos.

Outro dia, enquanto passava pelos meus e-mails, me deparei com um artigo publicado na Food Safety Magazine que me fez parar, respirar fundo e pensar: alguém finalmente colocou em palavras o que eu sinto há anos.

O texto, assinado por Steve Gibb, pesquisador de comunicação científica do Instituto para o Avanço das Ciências de Alimentos e Nutrição (IAFNS), se chama “Flowers for the Heroes in Hairnets: Boosting the Profession of Food Safety” ou, em tradução livre, “Flores para os Heróis de Touca: Valorizando a Profissão de Segurança dos Alimentos.”

Gibb começa contando que, ao longo da carreira como jornalista de saúde ambiental, sempre encontrou pessoas curiosas e engajadas com os temas que cobria. Mas quando passou a trabalhar com Food Safety, percebeu algo curioso: ao mencionar o assunto, os olhos das pessoas pareciam “ficar parados.” Quase ninguém fazia perguntas. Era como se as pessoas simplesmente dessem como certa a existência de um sistema que garante que a comida que chega à mesa é segura para comer, como se isso fosse algo trivial.

Essa observação me tocou profundamente. Porque é exatamente isso que sinto.

E na minha opinião, isso não é o problema em sim, tudo bem que as pessoas sintam segurança, mas será que é isso que elas sentem ou simplesmente não imaginam o trabalho grandioso que deve ser realizado para garantir que os alimentos da sua mesa sejam seguros? Será que elas imaginam o quanto de estudo, esforço, técnica, dedicação, pesquisa, discussões, brigas, envolvem esse processo?

“Isso me parece um contraste estranho com o entusiasmo pelas questões ambientais. Como é que a segurança dos alimentos é menos interessante ou menos relevante do que o ar que respiramos e a água que bebemos, que também entram em nossos corpos?”  Steve Gibb

 

O privilégio de ser essencial e a invisibilidade de quem protege a nossa mesa

Trabalhamos em um setor absolutamente essencial. A cadeia de segurança dos alimentos é o que impede que surtos de doenças de origem alimentar aconteçam em larga escala. Somos nós que monitoramos processos, implantamos programas, treinamos equipes, analisamos riscos, auditamos sistemas. Somos, como Gibb define no artigo, “pathogen slayers” – caçadores de patógenos, vigilantes silenciosos.

E ainda assim, nossa profissão é pouco conhecida, pouco celebrada e, muitas vezes, pouco valorizada, inclusive por nós mesmos.

Acho que eu nunca consegui colocar tão bem em palavras como Gibb fez! Lembro de inúmeras situações que me fizeram sentir o quanto somos “desconhecidos” de um processo que é vital. Talvez o momento de maior virada de chave para mim, foi na época da pandemia, quando as pessoas começaram a vacinar e na minha cidade, eu e a minha equipe, um laboratório de análise de alimentos, não fomos considerados profissionais da saúde e por tanto não podíamos vacinar, ao mesmo tempo, devíamos seguir em operação, pois precisávamos analisar e garantir que os alimentos estavam mais seguros do que nunca. Isso definitivamente não fez sentido para mim.

O artigo levanta uma pergunta que me parece fundamental: como é possível que a segurança dos alimentos seja menos interessante para o público geral do que questões ambientais? Afinal, os alimentos também entram no nosso corpo, assim como o ar que respiramos e a água que bebemos. Não faz sentido.

Gibb argumenta que os profissionais de food safety precisam de melhor visibilidade, não apenas para receber o reconhecimento que merecem, mas também para atrair novos talentos para a área. E ele vai além: fala sobre a riqueza da profissão, o trabalho interdisciplinar, a missão relevante, o uso da ciência para resolver problemas reais, e a crescente demanda por profissionais qualificados num cenário de comércio global de alimentos cada vez mais complexo.

Eu concordo com cada palavra.

 

Por Isso Criei a Estilo Food Safety

Quando li esse artigo, pensei imediatamente no momento em que decidi criar a Estilo Food Safety.

Tudo começou com uma percepção muito simples, mas que carrego com força: o profissional de food safety precisa ser visto. Precisa ser lembrado. Precisa ser valorizado como um profissional da saúde, porque é isso que ele é. Nós não salvamos vidas nos hospitais, mas impedimos que as pessoas cheguem lá.

Nossa realidade cotidiana é branca. Literalmente. Jaleco branco, ambiente branco, touca, luvas. A indumentária existe por uma razão nobre, faz parte do compromisso com a segurança dos alimentos que produzimos. Mas o que está dentro dessa roupa é colorido, apaixonado, técnico, dedicado e cheio de propósito.

A Estilo nasceu para dar cor a esse cotidiano.

Criei produtos pensados para que o profissional de food safety pudesse levar elementos da sua área para além do ambiente de trabalho, com estilo, com orgulho, com personalidade. Uma camiseta com a estampa da Teoria dos Obstáculos de Leistner. Uma ecobag com referências a HACCP. Um chaveiro no formato de uma bactéria. Uma miniatura de microrganismos para enfeitar ou explicar sobre microbiologia, um mundo invisível que se torna palpável e colorido. Uma caneca que faz a pessoa do lado perguntar: “o que é isso?” e aí começa uma conversa.

Porque toda vez que alguém pergunta, é uma oportunidade de falar sobre o que fazemos. De plantar a semente da cultura de segurança dos alimentos. De mostrar que essa profissão existe, importa e transforma vidas.

 

Prêmios e reconhecimentos para ‘Exterminadores de Patógenos’

Gibb fala que prêmios e reconhecimentos poderiam ajudar a impulsionar a visibilidade de talentos emergentes, reforçando seu profissionalismo e impacto. Ele traz o exemplo da  STOP Foodborne Illness que possui um  programa de reconhecimento para 40 profissionais de segurança dos alimentos com menos de 40 anos, bem como  o Prêmio Líderes Emergentes da IAFNS  que é concedido a jovens pesquisadores promissores em segurança dos alimentos e nutrição.

São exemplos de movimentos que podemos levar para outros países e com isso, movimentar, motivar e empoderar essa carreira.

 

Flores, sim — Mas também camisetas, canecas e conversas

Gibb encerra o artigo com uma frase que quero guardar: “Consumidores dependem dos heróis anônimos da segurança dos alimentos para garantir saúde e confiança. Vamos fazer mais para que eles saibam disso.”

É exatamente essa a missão da Estilo Food Safety.

Não somos apenas uma loja de produtos temáticos. Somos um movimento de valorização profissional. Cada peça carrega uma história, um conceito técnico transformado em design, uma mensagem que pode iniciar uma conversa num evento, num treinamento, no Dia Mundial da Segurança dos Alimentos, ou simplesmente no elevador.

Contribuímos para que cada profissional sinta o seu real valor na cadeia de produção de alimentos e se orgulhe de mostrar isso para o mundo.

O artigo da Food Safety Magazine me lembrou que estamos no caminho certo. Que a conversa sobre visibilidade e valorização do profissional de food safety é urgente e necessária. E que cada um de nós pode fazer a sua parte, seja por meio de prêmios e reconhecimentos, como Gibb sugere, seja por meio da educação, da pesquisa, ou de uma camiseta que faz a pessoa na fila do café perguntar: “o que é HACCP?”

Às flores para os heróis de touca, eu acrescento: e também às cores, às estampas, às histórias e ao orgulho de quem, todos os dias, trabalha para que a comida que chega à mesa de cada família seja segura.

 

Leia o artigo original de Steve Gibb na Food Safety Magazine: Flowers for the Heroes in Hairnets

Conheça a Estilo Food Safety:

 

Keli Lima
Keli Lima

CEO da BR Quality e Estilo Food Safety, especialista em Qualidade e Segurança dos Alimentos. Atua como consultora, mentora e auditora líder em normas de Food Safety e ESG.

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