Fraudes alimentares no Brasil em 2025

Fraudes alimentares no Brasil em 2025

Fraude alimentar é um tema recorrente no Brasil e no mundo. Mais do que prejuízo financeiro ou concorrência desleal, a fraude em alimentos e bebidas representa risco real à saúde da população.

Fraude alimentar pode envolver substituições, diluições, adição de substâncias não declaradas, falsificação de origem ou registro, reembalagem clandestina e uso indevido de marcas e rótulos.

Além do impacto sanitário, o problema tem grande peso econômico. Dados amplamente divulgados por entidades setoriais e pela imprensa indicam que o mercado ilegal movimentou cerca de R$ 470 bilhões em 2024, sendo aproximadamente R$ 86 bilhões apenas no setor de bebidas alcoólicas. Esse cenário evidencia a dimensão do problema e a necessidade de ações integradas de controle.

 

Fraudes alimentares no Brasil em 2025

 

Tipos de fraude alimentar: um mapa prático

Na prática (e em fiscalizações), as fraudes aparecem em “famílias”. De acordo com o Ministério da Agricultura:

Fraude: ato ilícito intencional que utiliza engano, falsificação, adulteração, alteração, corrupção para obter uma vantagem indevida.

Falsificação: tipo de fraude que envolve realização de cópia de um produto legítimo/original, incluindo o uso de informações falsas sobre sua identidade ou origem. Abrange a cópia de um produto em si (exemplo: mistura de corantes, álcool para simular uma bebida alcoólica), de uma marca comercial famosa e a fabricação de produtos por empresas clandestinas, atribuindo a sua origem a uma empresa legítima.

  • Falsificação (produto ou identidade): produto “se passando por outro”: lote falsificado, origem inexistente, uso indevido de número de registro, marca/copias, rótulo fraudado.
  • Fraude de informação / Rotulagem enganosa: declara algo e entrega outra composição; alega atributos não comprovados; vende como “extra virgem”, “puro”, “100%” sem atender padrão.

Adulteração/Diluição/Substituição: tipo de fraude que envolve a adição, remoção ou substituição (parcial ou total) de componentes de um produto, de forma a interferir diretamente nas suas características essenciais. Exemplos: adição de álcool etílico para diluir bebidas originais. Misturar água, xaropes, óleos mais baratos, ou “completar” com ingredientes não declarados. Usar material de baixa qualidade e mascarar com aromatizantes/corantes/rotulagem.

Produtos sem procedência: produtos para os quais não é possível identificar a sua origem, seja devido à ausência de informações básicas no rótulo, tais como fabricante, importador, lote, etc., à presença de informações falsas no rótulo (exemplo: CNPJ inexistente) ou produtos importados ilegalmente por empresas desconhecidas. Produções clandestinas.

Esses tipos costumam se combinar: quando há clandestinidade, é comum aparecerem também rótulos falsos, adulteração de validade, insumos impróprios e ausência de boas práticas.

 

Quais alimentos são mais fraudados “historicamente” (e por quê)

Na literatura e na comunicação pública, alguns grupos se repetem porque têm alto valor, cadeia longa e fraude difícil de perceber:

  • Azeite de oliva (mistura com óleos mais baratos; rotulagem como “extra virgem”)
  • Mel (adição de xaropes/açúcares)
  • Café moído (misturas com cascas/impurezas)
  • Leite (diluição e uso de aditivos para mascarar qualidade)
  • Embutidos e especiarias (substituições e ingredientes não declarados)
  • Bebida alcoólica
  • Suplementos alimentares

 

Fraudes alimentares em destaque em 2025

Bebidas alcoólicas: quando fraude vira risco químico imediato que pode levar a morte

Em 2025, o Brasil enfrentou um grave quadro de intoxicação por metanol associado ao consumo de bebidas alcoólicas adulteradas, sobretudo destilados como vodca, gin e uísque. De acordo com a atualização do dia 20.11.2025 divulgado pela Agência Brasil, o boletim da ANVISA divulgava centenas de notificações de casos suspeitos, 62 casos confirmados, 16 mortes registradas e pessoas com danos irreversíveis, como cegueira.

O cenário levou à intensificação das fiscalizações e à criação da Operação Dose Limpa, ação integrada coordenada pelo MAPA.

Resultados das operações:

  • Dose Limpa I (out/2025): foco no combate ao uso de metanol (substância altamente tóxica) e à produção clandestina. Resultado: 216 mil litros apreendidos (cachaça, vodka, gin, whisky, conhaque).
  • Dose Limpa II (dez/2025): combate ao comércio ilegal e produtos falsificados; o informe do MAPA reporta 21.230,25 litros apreendidos e 5.000,2 litros destruídos como impróprios.

 

Azeite de oliva: fraude por mistura de óleos e rotulagem enganosa

O azeite segue como um dos produtos mais vulneráveis: mistura de óleos vegetais e venda como “extravirgem” aparece como prática recorrente em discussões públicas e em ações oficiais.

Em 2025, o MAPA intensificou a avaliação deste produto e identificou inúmeras marcas com falsificação.

 

Café: fraude por impurezas, cascas e matérias-primas inadequadas

Em 2025 acompanhamos as notícias sobre “Café fake”.  Três marcas de café foram proibidas de comercializar seus produtos após o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) identificar adulterações na composição. Produtos vendidos como “café” puro continham misturas de outras substâncias não declaradas no rótulo.

Várias ações envolvendo diferentes marcas de café aconteceram em 2025, levando a recall, apreensões e multas.

Em 2025, os números e casos foram fortes, segue alguns casos:

  • Paraná: o MAPA reporta que, somente em 2025, fiscalizações no estado apreenderam 40 toneladas de café torrado e moído.
  • RJ (Campos dos Goytacazes): operação conjunta retirou mais de 2,4 toneladas do mercado; 1.070 kg foram destruídos no ato e 1.350 kg apreendidos para destinação/análises; foram citadas impurezas como cascas e paus e uso de grãos “mofados/ardidos”.
  • SFA-SC (Brusque): apreensão de 4,2 toneladas de cascas de café usadas irregularmente em torrefação, com caracterização de fraude na produção.

 

E no setor de suplementos?
O mercado de suplementos alimentares já movimenta bilhões, mas auditorias e testes apontam irregularidades generalizadas, em alguns estudos, até metade dos produtos analisados apresentou problemas como composição incorreta, falta de ingrediente declarado ou rotulagem enganosa. Esse cenário inclui produtos que não contêm o que o rótulo promete, contaminações ou ingredientes não notificados, o que expõe o consumidor a riscos de saúde e frustrantes resultados de consumo.

A Anvisa publica atos e notícias de “ação fiscal” (proibição/apreensão/recolhimento). Em 2025 houve caso explícito de falsificação em alimento/bebida pronta e vários casos relevantes envolvendo suplementos (muitos por origem desconhecida, irregularidade de fabricação, alegações não permitidas, etc.).

 

Exemplo de falsificação identificadas pela ANVISA em 2025

A ANVISA registrou 15 recalls por falsificação em 2025, destes a grande maioria está associada a suplementos alimentares, um de chá pronto para consumo onde houve a falsificação de marca, azeite e óleo de avestruz também entraram na lista de 2025.

 

O que muda quando você “traduz” fraude para risco sanitário

Na prática, o risco cresce quando há:

  • Substâncias químicas perigosas (ex.: metanol em bebidas)
  • Produção clandestina (sem rastreabilidade, sem controle, sem recolhimento efetivo)
  • Adulteração de validade (alimento fora de padrão podendo circular como “apto”)
  • Misturas e substituições que podem afetar alérgenos, contaminantes e composição real

Fraudes alimentares não são apenas infrações administrativas ou crimes econômicos. Elas quebram a confiança do consumidor, desorganizam o mercado e colocam vidas em risco.

Os casos de 2025 mostram que fiscalização, ações integradas e comunicação transparente são fundamentais, mas não suficientes. O enfrentamento das fraudes exige responsabilidade compartilhada entre indústria, distribuidores, comerciantes, órgãos de controle e consumidores.

Entender o que é fraude, como ela ocorre e quais riscos envolve é parte essencial da cultura de segurança dos alimentos. Informação qualificada continua sendo uma das ferramentas mais eficazes para prevenir, denunciar e combater esse problema.

Recall no Brasil dados de 2023, 2024 e 2025

Food Fraud: como elaborar?

 

Referências (principais)

  • MAPA – Operação Dose Limpa (outubro e dezembro/2025; volumes e datas).
  • MAPA – Azeite fraudado: apreensão de 10.800 L (24/02/2025).
  • MAPA – Café: operação RJ (1.070 kg destruídos + 1.350 kg apreendidos) e ações 2025 (PR: 40 t; compra pública 21 t; taxa de fraude nas amostras por risco).
  • MAPA/SFA-SC – Cascas de café (4,2 t) e ovos com validade adulterada (3.426 ovos; 740 kg carne).
  • MAPA – NOTA TÉCNICA Nº 27/2025/SEI/GIASC/GGFIS/DIRE4/ANVISA
  • ANVISA – Lote de chá descrito como falsificado (23/10/2025) e ações em suplementos (2025).
  • Monitor Mercantil – Fraudes alimentares no Brasil, um mercado bilionário. https://monitormercantil.com.br/fraudes-alimentares-no-brasil-um-mercado-bilionario-que-ameaca-saude-e-economia/
  • Panorama de alimentos mais vulneráveis (azeite, mel, café, leite, embutidos, especiarias).
  • Estimativas e contexto econômico citados em artigo setorial e anuário (mercado ilegal 2024 e perdas em bebidas).

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Keli Lima
Keli Lima

CEO da BR Quality e Estilo Food Safety, especialista em Qualidade e Segurança dos Alimentos. Atua como consultora, mentora e auditora líder em normas de Food Safety e ESG.