OMS atualiza manuais globais sobre DTAs

OMS atualiza manuais globais sobre DTAs – doenças transmitidas por alimentos: novos patamares para vigilância e resposta a surtos

Por que este lançamento é histórico

Em 13 de maio de 2026, a Organização Mundial da Saúde (OMS) realizou um webinar de alto nível para marcar oficialmente o lançamento da versão atualizada de seu conjunto completo de manuais sobre vigilância e resposta às doenças transmitidas por alimentos (DTA). O evento ocorreu como parte de uma série de ações que antecedem o Dia Mundial da Segurança dos Alimentos, celebrado anualmente em 7 de junho, e reuniu especialistas da sede da OMS, do escritório regional para a África (AFRO) e do escritório regional para o Mediterrâneo Oriental (EMRO).

O que torna este lançamento particularmente significativo é que ele representa a atualização de toda a série de manuais de uma só vez, algo que não acontecia há anos. Os novos documentos incorporam avanços científicos recentes, novas diretrizes institucionais da OMS, dados estatísticos atualizados e uma visão ampliada sobre os riscos emergentes, como as mudanças climáticas e o papel crescente da inteligência artificial na vigilância alimentar.

 

O evento aconteceu no dia 13 de maio no formato online e tanto a apresentação quando o vídeo estão disponíveis para todos.

 

Estrutura do webinar e apresentações

O evento foi conduzido pela Unidade de Ciência e Tradução do Conhecimento do EPI-WIN e contou com a seguinte programação de apresentações:

  • A importância da vigilância de DTA para a preparação e resposta
  • Vigilância de DTA no contexto da segurança sanitária global
  • Visão geral dos novos manuais
  • Experiência de país: aplicação dos manuais

 

Por que a vigilância de DTA é uma prioridade global

A apresentação da OMS organizou as razões para fortalecer a vigilância e a resposta a doenças transmitidas por alimentos em dez dimensões. Elas refletem tanto a gravidade do problema quanto as oportunidades de impacto com ações coordenadas:

  • Proteger a saúde pública: as DTA são preveníveis e controláveis por meio de sistemas eficazes, que atuam desde a produção até o consumo.
  • Preservar interesses econômicos: surtos geram perdas significativas em custos de saúde, produtividade e impacto sobre a indústria alimentar e o comércio internacional.
  • Compreender os efeitos das mudanças climáticas: temperaturas mais altas e mudanças nos padrões de precipitação criam condições ideais para a proliferação de patógenos alimentares.
  • Quebrar o ciclo de desnutrição e DTA: a desnutrição enfraquece o sistema imunológico, tornando as pessoas mais suscetíveis a doenças alimentares, que por sua vez agravam a desnutrição.
  • Contribuir para a segurança dos alimentos global: o monitoramento das cadeias de abastecimento alimentar fornece informações sobre contaminações e permite medidas corretivas.
  • Aprimorar a colaboração multisetorial e a abordagem One Health: ações eficazes exigem integração entre saúde humana, saúde animal e agências ambientais.
  • Promover a compreensão científica e a inovação: a vigilância contínua gera dados valiosos para pesquisa e aprimoramento de políticas públicas.
  • Apoiar a educação em saúde comunitária: programas de vigilância frequentemente incluem componentes de conscientização pública sobre práticas seguras de manipulação de alimentos.
  • Apoiar estudos de estimativa da carga de doenças: dados de vigilância são essenciais para identificar populações mais afetadas e orientar a alocação de recursos.
  • Contribuir para a segurança sanitária global: a identificação e resposta rápidas ajudam a prevenir a transmissão de patógenos além das fronteiras nacionais.

 

Caso em destaque: recall global de fórmulas infantis (2025–2026)

Durante o webinar, a OMS utilizou um evento recente como exemplo prático das consequências de falhas na detecção e coordenação internacional. Em dezembro de 2025, recalls de produtos foram iniciados após a identificação de contaminação em fórmulas infantis, produtos nutricionais e misturas de óleos distribuídos para mais de 100 países e territórios. Entre janeiro e fevereiro de 2026, foram registrados 144 casos suspeitos e confirmados em dez países, com o risco global avaliado pela OMS como moderado, em razão da vulnerabilidade da população afetada (bebês com sistemas imunológicos imaturos e sem alternativa nutricional) e das incertezas persistentes sobre a extensão total da distribuição e exposição.

O evento destacou três fatores de complexidade que tornam os incidentes com fórmulas infantis particularmente desafiadores: processos de fabricação com múltiplos pontos de entrada para contaminação; ingredientes fornecidos por dezenas de países; e uma população consumidora altamente vulnerável. A rede INFOSAN permitiu alertas rápidos após a verificação dos primeiros casos, e a resposta internacional coordenada evitou milhares de exposições adicionais.

 

O indicador global de vigilância de DTA: onde estamos

A Estratégia Global de Segurança dos alimentos 2022–2030 da OMS estabelece como objetivo estratégico 1.5 o fortalecimento dos programas de monitoramento e vigilância de alimentos. Quando a estratégia foi lançada em 2022, o indicador de vigilância de DTA estava em 1,5 em uma escala de 5 pontos. Atualmente, o indicador subiu para 2,8 — um progresso real, mas ainda abaixo da meta estabelecida. Melhorar as capacidades dos países para vigilância de DTA permanece uma prioridade explícita da OMS.

 

Indicador de vigilância de DTA — Estratégia Global de Segurança Alimentar 2022–2030

2022 (lançamento da estratégia): 1,5 / 5

2026 (situação atual):           2,8 / 5

Meta estabelecida:               ainda não atingida

Conclusão: progresso real, mas esforço contínuo necessário

 

Os cinco manuais atualizados da OMS: estrutura e conteúdo

O conjunto publicado pela OMS é composto por cinco manuais organizados em três estágios progressivos. A lógica de progressão reconhece que nenhum país parte do zero, e que os sistemas de vigilância precisam ser fortalecidos de forma incremental, de acordo com a maturidade de cada contexto nacional. A seguir, uma descrição de cada manual com base nas informações oficiais da OMS.

Estas publicações atualizam os documentos publicados em 2017.

  • Manual Introdutório
  • Manual do Estágio 1 — Parte A: Vigilância baseada em indicadores e em eventos para a detecção de eventos alimentares
  • Manual do Estágio 1 — Parte B: Investigação de surtos de doenças transmitidas por alimentos
  • Manual do Estágio 2: Fortalecimento da vigilância baseada em indicadores
  • Manual do Estágio 3: Integração de dados de vigilância para melhor compreensão dos riscos ao longo da cadeia alimentar

Link para acessar os manuais.

O que há de novo na edição de 2026

Segundo a OMS, as atualizações dos manuais refletem um conjunto de prioridades emergentes que não estavam adequadamente contempladas nas versões anteriores. As principais novidades incluem:

  • Alinhamento com os novos marcos institucionais da OMS, incluindo a Estratégia Global de Segurança dos alimentos 2022–2030 e as orientações da abordagem Quadripartite (OMS, FAO, PNUMA e WOAH).
  • Expansão do enfoque sobre a importância da vigilância e resposta a DTA, agora organizado em torno de 10 razões-chave e 10 princípios orientadores.
  • Maior integração da abordagem One Health, da colaboração multisetorial e dos vínculos com a implementação do RSI 2005*.
  • Atualização das árvores de decisão e dos objetivos estratégicos ao longo dos manuais, com maior coerência e usabilidade.
  • Novas ferramentas e orientações práticas para investigação de surtos, incluindo geração estruturada de hipóteses e uso do Toolkit de Surtos da OMS.
  • Adição de estudos de caso de países, exemplos de vigilância, questões de avaliação e orientações de implementação ao longo de todo o conjunto.
  • Novo conteúdo sobre considerações de saúde climática e ambiental na vigilância de DTA.
  • Novo anexo apresentando o papel potencial da inteligência artificial no fortalecimento dos sistemas de vigilância de DTA, uma novidade inédita na série.
  • Maior ênfase na tradução dos dados de vigilância em ações concretas: gestão de riscos, políticas e prevenção.
  • Atualização de terminologia, recursos web, referências e remissões cruzadas entre os manuais.

 

*O RSI 2005 – Regulamentos Sanitários Internacionais –  é um marco juridicamente vinculante adotado por 196 países, que exige que as nações desenvolvam capacidades para detectar, avaliar, notificar e responder a potenciais eventos de saúde pública de interesse internacional, incluindo aqueles de origem alimentar. Os manuais da OMS estão alinhados com as capacidades essenciais do RSI e com os indicadores da Avaliação Externa Conjunta (JEE), de modo que o fortalecimento da vigilância de DTA fortalece, ao mesmo tempo, os compromissos dos países com o RSI.

 

O lançamento dos cinco manuais atualizados representa um marco relevante na agenda global de segurança dos alimentos. Pela primeira vez em anos, toda a série foi revisada de forma coerente, incorporando evidências científicas recentes, diretrizes institucionais atualizadas e ferramentas práticas que países em diferentes estágios de desenvolvimento podem utilizar imediatamente.

A realização do webinar EPI-WIN às vésperas do Dia Mundial da Segurança dos Alimentos não é coincidência: é um sinal claro de que a OMS quer dar visibilidade às ferramentas disponíveis e convocar países a agir. O indicador global ainda está abaixo da meta, mas o caminho está traçado, com manuais, ferramentas, suporte técnico e uma rede internacional disposta a colaborar.

Para profissionais de saúde pública, vigilância epidemiológica, segurança dos alimentos e políticas de saúde, estes manuais são leitura obrigatória, não como referência teórica, mas como guias práticos para fortalecer sistemas que, em última análise, protegem vidas.

 

Novas estimativas da OMS para DTAs 2026

Fontes

  • Página do evento EPI-WIN (13/05/2026)
  • Apresentação oficial do webinar (PDF)
  • Vídeo completo do evento (YouTube)
  • Manual Introdutório
  • Manual Estágio 1 Parte A
  • Manual Estágio 1 Parte B
  • Manual Estágio 2
  • Manual Estágio 3
Keli Lima
Keli Lima

CEO da BR Quality e Estilo Food Safety, especialista em Qualidade e Segurança dos Alimentos. Atua como consultora, mentora e auditora líder em normas de Food Safety e ESG.

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