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caminhos reais para a mudança e a felicidade
Mudança de hábito é um dos temas mais falados e menos compreendidos quando o assunto é comportamento humano. Costumamos tratar hábitos como simples escolhas individuais, quando, na prática, eles são construções complexas, moldadas por processos automáticos, emoções, contexto, consequências e vieses cognitivos.
Nesta época do ano costumamos fazer planos que estão associados a construção de novos hábitos ou mudança de hábitos que não queremos mais levar para vida e acreditamos que é apenas uma questão de esforço para alcançarmos, mas, no primeiro mês já nos deparamos com o não cumprimento da meta e desanimamos, deixamos para a próxima semana, o próximo mês ou apenas nos calçamos em questões como “Eu não tenho tempo!” ou “É muito difícil para mim!”. Pronto, fica como promessa para o próximo fim de ano!
Este texto reúne conceitos fundamentais sobre hábitos, emoções e mudança comportamental, mostrando por que mudar é difícil, por que recaídas fazem parte do processo e como estruturar mudanças de forma mais realista e sustentável.
Baseado nas aulas de Pós Graduação em Neurociências da PUC Paraná – Redução e Substituição de maus hábitos – caminho para felicidade. Com os professores André Luiz Moreira e Elisiê Gonçalves.
De forma geral, um hábito é uma rotina de execução que não exige, necessariamente, atenção ou consciência constante do indivíduo.
Uma boa metáfora para entender hábitos é a de uma árvore. Todo hábito tem uma história de desenvolvimento: começa como uma semente, cresce, cria raízes e, com o tempo, torna-se uma árvore grande e difícil de remover. Assim como uma árvore precisa ser nutrida para crescer, hábitos também se fortalecem a partir de estímulos constantes.
Para compreender como um hábito se forma, se mantém e pode ser modificado, a metáfora da árvore é especialmente útil, pois evidencia que hábitos não surgem prontos: eles se desenvolvem ao longo do tempo, sustentados por diferentes camadas.
Raiz: representa tudo aquilo que sustenta o hábito. São as motivações invisíveis, as emoções associadas, os gatilhos internos e externos, as necessidades que aquele comportamento atende e, muitas vezes, crenças e valores não conscientes. É na raiz que estão as emoções primárias que reforçam o hábito, como alívio, prazer imediato ou redução de desconforto. Quando tentamos mudar um hábito sem olhar para a raiz, o comportamento tende a retornar, pois a necessidade que o sustenta continua ativa.
Tronco: simboliza a repetição e a estrutura do hábito. Cada vez que o comportamento é executado, o tronco se fortalece. Com o tempo, essa repetição transforma a ação em algo automático, exigindo cada vez menos esforço cognitivo. É aqui que o hábito se consolida como padrão: horários, contextos, rotinas e sequências previsíveis fazem com que o comportamento aconteça quase sem escolha consciente. Quanto mais antigo o hábito, mais espesso é esse tronco e mais difícil é quebrá-lo apenas com força de vontade.
Folhas e os frutos: representam os resultados do hábito na vida da pessoa, tanto no curto quanto no longo prazo. Algumas árvores produzem frutos nutritivos; outras, frutos venenosos. O mesmo ocorre com hábitos. Muitas vezes, hábitos ruins se apresentam mascarados de bons e acabam ocupando o espaço de hábitos saudáveis.
Os hábitos que trazem prejuízos a saúde e a vida parecem momentaneamente bons e há uma explicação biológica ou melhor neurobiológica para isso. Aquela prática, como: fumar, beber, jogar, redes sociais. Ativam neurotransmissores que trazem uma sensação de prazer, mas e um prazer pobre, momentâneo e “barato” (um barato que custa muito caro para nossas vidas), então, repetimos tudo aquilo que não queremos repetir, porque precisamos daquela sensação que o mau hábito nos traz e nosso cérebro não nos ajuda neste momento, pois para ele é confortável essa energia e felicidade “barata” e é por isso que uma mudança exige esforço.
A boa notícia (ou não, para aqueles que sustentam um hábito dizendo que é impossível mudar), é a neuroplasticidade ou plasticidade cerebral, ou seja, a incrível capacidade do cérebro de se reorganizar, formar novas conexões neurais e adaptar-se ao longo da vida em resposta a novas experiências, aprendizado, ambiente ou lesões, criando novos caminhos e modificando os existentes. E quando falamos em novo hábito ou mudança de hábito são estes novos caminhos que buscamos.
Por isso, mudanças sustentáveis não acontecem apenas cortando os galhos, mas intervindo na raiz, enfraquecendo o tronco antigo e, gradualmente, fortalecendo um novo hábito que gere frutos mais alinhados com os valores e objetivos da pessoa.
Todo hábito possui três momentos fundamentais:
Esses mecanismos não surgiram por acaso. Eles estão ligados a processos adaptativos da evolução humana, que favoreceram comportamentos automáticos para reduzir esforço mental e aumentar as chances de sobrevivência.
As consequências determinam se um hábito será mantido ou enfraquecido.
Já as punições reduzem a probabilidade de um hábito ocorrer:
Por isso, hábitos não desaparecem ou surgem “do nada”. Eles mudam conforme as consequências associadas. Em muitos casos, hábitos ruins substituem hábitos bons simplesmente porque oferecem consequências mais imediatas ou mais intensas.
A principal função das emoções em relação aos hábitos é disparar comportamentos. Emoções motivam ações, comunicam estados internos e facilitam interações sociais.
Emoções primárias: são viscerais, rápidas e de resposta imediata ao estímulo:
alegria, tristeza, nojo, surpresa, raiva e medo.
Emoções secundárias: são mais complexas, dependem de interpretação e experiência: ansiedade, constrangimento, entusiasmo, ambivalência e satisfação.
Aqui está um ponto- chave: hábitos ruins costumam gerar emoções primárias positivas imediatas, mesmo quando produzem consequências negativas no longo prazo. Já hábitos bons, muitas vezes, exigem tolerar emoções primárias desagradáveis antes de gerar emoções secundárias positivas.
Isso explica por que inserir um novo hábito ou abandonar um hábito ruim exige esforço.
Exemplo: Imagine uma pessoa que decide inserir o hábito da leitura diária.
No primeiro dia, ao abrir um livro após o trabalho, a experiência imediata costuma ser desconfortável. O corpo está cansado, a mente dispersa, o celular vibra com notificações. A emoção primária dominante pode ser tédio, impaciência ou até irritação. O cérebro interpreta aquela situação como esforço, gasto de energia e ausência de recompensa imediata.
Nesse mesmo horário, se essa pessoa optasse por rolar o feed das redes sociais ou assistir a uma série, o cenário emocional seria outro: prazer rápido, alívio do cansaço e sensação imediata de relaxamento. Mesmo que, no longo prazo, esse comportamento gere culpa, procrastinação ou sensação de tempo desperdiçado, a emoção primária positiva acontece no momento da escolha e é isso que reforça o hábito ruim.
Por isso, nesse estágio inicial, manter o hábito exige tolerar o mal-estar. É preciso suportar emoções primárias negativas sem buscar alívio imediato.
Com o tempo, algo muda. Após semanas de repetição, surgem as emoções secundárias positivas: satisfação, orgulho, sensação de autocontrole, identidade fortalecida. Essas emoções não são imediatas, mas são mais profundas e duradouras. É nesse ponto que o hábito começa a se sustentar com menos esforço.
Esse contraste explica por que hábitos ruins são fáceis de manter e hábitos bons são difíceis de iniciar. O cérebro não escolhe o que é melhor no longo prazo; ele escolhe o que alivia ou recompensa agora. A mudança acontece quando aprendemos a atravessar o desconforto inicial em nome de recompensas futuras.
Mudar hábitos exige desenvolver a habilidade de tolerar o mal-estar emocional. Emoções primárias surgem rapidamente, atingem um pico e, se não forem alimentadas, diminuem com o tempo.
Aprender a esperar esse pico passar é essencial.
Algumas estratégias podem ajudar neste momento:
Tolerar o mal-estar não significa gostar do desconforto, mas não agir automaticamente para eliminá-lo. Emoções primárias são rápidas, intensas e passageiras. Quando a pessoa reage imediatamente a elas, reforça o hábito indesejado. Quando aprende a esperar, o pico emocional diminui e a necessidade urgente de agir perde força. As estratégias abaixo atuam justamente nesse intervalo crítico entre o impulso e a ação.
Distratores: funcionam porque quebram o ciclo automático estímulo–resposta. Ao substituir o comportamento indesejado por outra atividade simples e neutra: caminhar, organizar algo, iniciar uma tarefa curta, o cérebro ganha tempo. Esse intervalo reduz a intensidade da emoção primária e enfraquece o impulso. O objetivo não é eliminar o desejo, mas adiar a resposta até que ele perca força.
Estimulação sensorial: atua diretamente no corpo, que é onde a emoção primária se manifesta primeiro. Beber água, ouvir uma música, usar um aroma ou se movimentar muda o estado fisiológico, reduz a ativação emocional e ajuda o cérebro a sair do modo automático. Muitas vezes, esse pequeno deslocamento corporal já é suficiente para que a pessoa recupere clareza e retorne ao foco, em vez de ceder ao mau hábito.
Ressignificação cognitiva: ajuda a trazer o longo prazo para o presente. Lembretes visuais, frases, post-its ou imagens funcionam como âncoras mentais que reconectam a pessoa às emoções secundárias positivas: orgulho, satisfação, coerência com valores, que ainda não estão sendo sentidas naquele momento. Isso reduz a distância psicológica entre esforço atual e benefício futuro.
Atenção plena: permite observar o desconforto sem julgamento ou tentativa imediata de fuga. Ao nomear a emoção (“estou sentindo vontade”, “estou impaciente”, “meu corpo está resistindo”), a pessoa cria um espaço entre o que sente e o que faz. Esse distanciamento diminui a reatividade e enfraquece o comando automático do hábito.
Respiração compassiva: regula o sistema nervoso. Técnicas simples de respiração lenta e ritmada reduzem a ativação fisiológica, diminuem ansiedade e aumentam a capacidade de escolha consciente. Respirar com intenção não elimina o desconforto, mas cria estabilidade suficiente para atravessá-lo sem recorrer ao comportamento indesejado.
Em conjunto, essas estratégias não eliminam o mal-estar, mas ensinam o cérebro a conviver com ele. É essa habilidade e não a força de vontade que sustenta a mudança de hábitos ao longo do tempo.
Decidir conscientemente consome muita energia mental. Por isso, o cérebro automatiza padrões de comportamento. Isso é vantajoso, reduz gasto energético, mas também cria armadilhas.
Segundo Daniel Kahneman, operamos por meio de dois sistemas:
O Sistema 1 não é um vilão. Ele é necessário. Porém, ele mantém maus hábitos com facilidade, pois é guiado por vieses cognitivos, como:
Reconhecer que muitas decisões ligadas a maus hábitos são irracionais é um passo fundamental para a mudança.
Hábitos não existem no vácuo nem dependem exclusivamente de motivação individual. Eles são profundamente influenciados pelo contexto em que a pessoa está inserida. O ambiente funciona como um facilitador ou um obstáculo constante, muitas vezes de forma silenciosa, conduzindo escolhas antes mesmo que elas se tornem conscientes.
Ambientes caracterizados por alta acessibilidade, baixo esforço e recompensas rápidas favorecem a manutenção de maus hábitos. Quanto menor o esforço exigido, maior a chance de repetição do comportamento. É por isso que o fast food se torna uma escolha mais frequente do que cozinhar em casa, enquanto ir ao supermercado ou à academia exige planejamento, deslocamento e gasto de energia física e mental. O cérebro tende a optar pelo caminho que consome menos recursos no curto prazo, mesmo que isso traga prejuízos no longo prazo.
Diante disso, confiar apenas na força de vontade é uma estratégia frágil. A mudança de hábitos se torna mais eficaz quando se trabalha com a arquitetura de escolhas: organizar o ambiente de forma que hábitos desejáveis se tornem mais fáceis de executar e hábitos indesejados mais difíceis de manter. Isso pode incluir desde pequenas mudanças, como deixar alimentos saudáveis visíveis, reduzir gatilhos de distração, manter celular distante ou preparar previamente o que será necessário para um novo hábito, até intervenções mais estruturais no espaço físico, no tempo e nas rotinas.
Quando o ambiente passa a “puxar” a pessoa na direção certa, a mudança deixa de depender apenas de esforço consciente. O contexto passa a trabalhar a favor do comportamento desejado, tornando o hábito mais sustentável e reduzindo a probabilidade de recaídas.
Mudanças não são como subir escadas. Elas se parecem mais com descer uma ladeira escorregadia.
As etapas da mudança incluem:
A mudança real acontece na transição entre os estágios. Cada estágio vencido já corresponde a uma mudança e motivo de comemoração.
Recaídas não indicam fracasso ou falta de compromisso. Elas fazem parte da mudança.
O que define o compromisso não é a ausência de recaídas, mas a rapidez com que se retorna à estratégia de mudança.
Mudança só parece fácil para quem nunca tentou mudar.
Aceitar a dificuldade, decidir pela mudança todos os dias e entender recaídas como parte do processo são atitudes fundamentais para persistir.
Mudar hábitos não é simples, rápido ou linear. É um processo que envolve emoções, contexto, consequências, consciência e esforço contínuo.
Quando compreendemos como hábitos realmente funcionam, deixamos de nos culpar e passamos a estruturar mudanças mais inteligentes, humanas e sustentáveis.
A felicidade, nesse contexto, não está na ausência de esforço, mas na construção consciente de hábitos que sustentam a vida que queremos viver.