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Artigo 2 de 2 | Blog Semear | Baseado em: Hua, Z. & Zhu, M.-J. (2024). Comprehensive strategies for controlling Listeria monocytogenes biofilms on food-contact surfaces. Comprehensive Reviews in Food Science and Food Safety, 23, e13348.
O primeiro artigo desta série mostrou que Listeria monocytogenes é um patógeno alimentar extraordinariamente persistente, capaz de formar biofilmes em praticamente qualquer superfície da indústria alimentícia e de sobreviver por anos em instalações de processamento, resistindo à higienização convencional. Agora, chegamos à questão central para a prática industrial: como eliminar esses biofilmes?
A revisão de Hua e Zhu (2024) realiza um mapeamento sistemático e detalhado das estratégias de controle disponíveis, avaliando sua eficácia, limitações e perspectivas futuras. Os autores deixam claro que não existe uma bala de prata — nenhum único método resolve completamente o problema. O que existe é um arsenal de ferramentas que, quando usadas de forma inteligente e combinada, podem trazer o risco de contaminação por L. monocytogenes a níveis aceitáveis.
Este artigo aborda as principais estratégias de controle: desinfetantes químicos (com foco especial nos mecanismos de ação e eficácia), tratamentos físicos, biológicos e abordagens emergentes como a tecnologia de barreiras múltiplas.
Os biocidas químicos são a ferramenta mais amplamente utilizada na indústria alimentícia para o controle de L. monocytogenes e outros patógenos. Sua popularidade se deve à facilidade de uso, dissolubilidade em água, custo relativamente acessível e amplo espectro de atividade. No entanto, a eficácia contra biofilmes estabelecidos é frequentemente inferior à esperada, e a compreensão de seus mecanismos é essencial para o uso racional.
TABELA 1. Eficácia de desinfetantes químicos comumente usados contra biofilmes de Listeria monocytogenes
| Desinfetante | Concentração | Superfície | Tempo Contato | Redução (log UFC/cm²) | Observações |
| Hipoclorito de sódio (cloro) | 200 ppm | Aço inox | 1 min | 1,5 – 3,2 | Eficácia reduzida em biofilmes envelhecidos e na presença de matéria orgânica |
| Hipoclorito de sódio (cloro) | 200 ppm | HDPE (polietileno) | 1 min | 0,8 – 2,1 | Superfícies desgastadas reduzem significativamente a eficácia |
| Hipoclorito de sódio (cloro) | 200 ppm | PVC | 1 min | 1,0 – 2,5 | Rugosidade superficial compromete o desempenho; biofilmes persistentes após tratamento |
| Compostos de amônio quaternário (QAC) | 400 ppm | Aço inox | 1 min | 2,0 – 4,5 | Redução drástica na presença de matéria orgânica; resistência documentada via genes qac |
| Compostos de amônio quaternário (QAC) | 400 ppm | Borracha | 1 min | 0,5 – 1,8 | Baixa eficácia em superfícies porosas e rugosas; microestrutura protege biofilme |
| Compostos de amônio quaternário (QAC) | 400 ppm | Poliestireno | 1 min | 1,2 – 3,0 | Biofilmes multiespécies reduzem eficácia; carga negativa favorece adesão bacteriana |
| Ácido peracético (PAA) | 160 ppm | Aço inox | 1 min | 2,5 – 5,0 | Melhor desempenho geral entre desinfetantes convencionais; comprometido por sujidade |
| Ácido peracético (PAA) | 160 ppm | PET (poliéster) | 1 min | 1,8 – 4,2 | Eficaz mas reduzido em superfícies com defeitos de desgaste |
| Ácido peracético (PAA) | 160 ppm | Borracha | 1 min | 1,0 – 2,5 | Textura rugosa protege células do biofilme nas camadas mais profundas |
| Dióxido de cloro (ClO₂) – solução aquosa | 5 ppm | Aço inox | 5 min | 3,0 – 5,0 | Alta eficácia; mais estável em pH neutro a alcalino que o cloro convencional |
| Dióxido de cloro (ClO₂) – gás | 20 ppm | Aço inox (2B) | 5–10 min | 0,6 – 1,5 | Eficácia do gás varia conforme o tipo e acabamento da superfície |
| Dióxido de cloro (ClO₂) – gás | 20 ppm | Borracha / PVC | 5–10 min | 0,3 – 0,9 | Menor eficácia em superfícies rugosas e hidrofóbicas |
| Água ozonizada | 4,0 ppm | Poliestireno | 1 min | ~4,1 | Biofilmes envelhecidos e multiespécies reduzem drasticamente a eficácia |
| Água ozonizada | 2,0 ppm | Poliestireno | 1 min | ~3,4 | Necessária alta concentração para eficácia satisfatória em biofilmes |
| Água ozonizada | 1,0 ppm | Poliestireno | 1 min | ~0,9 | Concentração baixa insuficiente para biofilmes de Listeria |
| Hipoclorito de sódio + QAC (combinação sinérgica) | 200 + 400 ppm | Aço inox | 2 min | 3,5 – 6,0 | Sinergismo documentado; amplia espectro de ação e penetração no biofilme |
| PAA + vapor saturado (estratégia de barreiras) | 160 ppm PAA + vapor 130°C | Aço inox / PET / Borracha | 30 s vapor pós PAA | >5,0 | Hurdle technology: resultado excelente combinado; vapor intensifica ação do PAA |
| Cloro + tratamento UV | 100 ppm + 10 mJ/cm² | Aço inox | 1 min + UV | 3,0 – 5,5 | UV complementa ação do cloro; eficaz especialmente em superfícies lisas |
Fontes: Hua & Zhu (2024); Korany et al. (2018); Hua et al. (2019); Hua & Zhu (2024b). Reduções expressas em log UFC/cm². UFC = unidades formadoras de colônias; QAC = compostos de amônio quaternário; PAA = ácido peracético; PET = politereftalato de etileno; HDPE = polietileno de alta densidade; PVC = policloreto de vinila. Resultados variam conforme a idade do biofilme, cepa, presença de matéria orgânica e temperatura.
A análise da Tabela 1 revela padrões importantes. O ácido peracético (PAA) consistentemente apresenta o melhor desempenho dentre os desinfetantes convencionais testados em aço inox e PET. Os compostos de amônio quaternário (QAC) demonstram boa eficácia em aço inox limpo, mas seu desempenho despenca em superfícies porosas como borracha. O cloro (hipoclorito de sódio) é o mais sensível à presença de matéria orgânica e ao desgaste das superfícies. A água ozonizada apresenta alta eficácia em altas concentrações, mas biofilmes multiespécies e envelhecidos resistem significativamente.
É importante destacar que todas as reduções referem-se a condições laboratoriais controladas. Em ambiente industrial real, com presença de matéria orgânica, superfícies desgastadas, temperatura variável e pressão de tempo, os resultados tendem a ser significativamente menores. Hua e Zhu (2024) documentam que superfícies com sinais de desgaste podem reduzir a eficácia dos desinfetantes em 1 a 3 log UFC/cm² adicionais.
Compreender como cada desinfetante ataca as células bacterianas é fundamental para selecionar a combinação mais adequada para cada aplicação. Mecanismos distintos tendem a ser sinérgicos quando combinados, uma célula que sobrevive ao ataque de um agente pode ser vulnerável a outro com modo de ação diferente.
TABELA 2. Mecanismos antimicrobianos de desinfetantes químicos comumente usados
| Desinfetante | Mecanismo de Ação Principal | Espectro de Atividade | Principais Limitações |
| Cloro / Hipoclorito de sódio | Oxidação de componentes celulares críticos (proteínas, DNA, lipídeos de membrana); destruição da integridade da membrana celular; inibição de enzimas essenciais | Amplo espectro: bactericida, fungicida, virucida, esporicida em altas concentrações | Fortemente inativado por matéria orgânica; corrosivo para equipamentos e superfícies; forma subprodutos halogenados tóxicos (THMs, HAAs); pouco eficaz em pH alcalino (pH > 8) |
| Compostos de amônio quaternário (QAC) | Perturbação e desestabilização da membrana citoplasmática por interação com grupos fosfato dos fosfolipídeos; vazamento do conteúdo intracelular; desnaturação de proteínas e enzimas; inibição da respiração celular | Gram-positivos, Gram-negativos (atividade variável), fungos, alguns vírus envelopados. Menos eficaz contra esporos | Inativado por surfactantes aniônicos, matéria orgânica e água dura; resistência documentada em L. monocytogenes via genes qacH, smr, bcrABC; pode causar tolerância cruzada a antibióticos |
| Ácido peracético (PAA) | Forte agente oxidante: desnaturação irreversível de proteínas e enzimas; peroxidação de lipídeos de membrana; oxidação de grupos sulfidril e tiol; geração de radicais livres que atacam múltiplos alvos celulares simultaneamente | Amplo espectro; eficaz contra biofilmes; ativo em baixas temperaturas (4–10°C); não forma subprodutos tóxicos persistentes (decompõe em ácido acético, H₂O₂ e água) | Instável a temperaturas elevadas e exposição à luz; custo mais elevado que o cloro; odor pungente e irritante; inativado por matéria orgânica; pode ser corrosivo em altas concentrações |
| Dióxido de cloro (ClO₂) | Oxidação seletiva de aminoácidos aromáticos (tirosina, triptofano, fenilalanina) e grupos sulfidril; inibição da síntese proteica; não forma organoclorados (reage com estruturas insaturadas, não com compostos orgânicos via cloração) | Amplo espectro; mais eficaz que o cloro em pH neutro a alcalino; eficaz em menor concentração que o cloro para o mesmo nível de desinfecção | Custo elevado; exige geração in situ por instabilidade; sensível à luz UV e temperatura; pode irritar as vias respiratórias; uso limitado em certas regiões |
| Ozônio (O₃) | Forte agente oxidante: ataca lipídeos de membrana (oxidação), proteínas (oxidação de grupos sulfidril e amino) e ácidos nucleicos; destrói a estrutura da parede e membrana celular; mecanismo inespecífico e multialvo | Amplo espectro: bactericida, fungicida, virucida, esporicida. Mais forte oxidante disponível comercialmente | Instável — meia-vida curta em água (15–30 min a 20°C); requer equipamento especializado de geração; irritante pulmonar e ocular; rapidamente inativado por matéria orgânica; não deixa resíduo protetor |
| Glutaraldeído | Alquilação de grupos amino, sulfidril e hidroxil em proteínas; reticulação de proteínas da parede celular e da membrana; desnaturação de ácidos nucleicos e inativação enzimática | Amplo espectro; eficaz contra bactérias vegetativas, esporos, fungos e vírus; nível de esterilização em tempo suficiente | Alta toxicidade para humanos; longo tempo de contato necessário; requer neutralização; uso crescentemente restrito na indústria alimentícia por regulação; fixador de matéria orgânica (pode dificultar limpeza) |
| Iodóforos (iodo + surfactante) | Penetração na membrana celular; oxidação e iodação de aminoácidos e ácidos nucleicos; inibição de enzimas por iodação de grupos funcionais; ação detergente do surfactante complementa penetração | Amplo espectro: bactericida, virucida, fungicida, atividade parcial contra esporos | Mancham superfícies e equipamentos; instável em alta temperatura (>49°C) e pH alcalino; pH ativo ácido (pH 2–5 ideal); inativado por matéria orgânica; irritante ocular e dérmico em altas concentrações |
| Ácidos orgânicos (lático, acético, cítrico) | Acidificação do citoplasma: o ácido não dissociado (forma lipossolúvel) atravessa passivamente a membrana celular e se dissocia internamente, liberando H⁺ e reduzindo o pH intracelular; inibição enzimática; interferência com transporte de elétrons | Principalmente bactérias Gram-positivas (incluindo Listeria); menor eficácia contra Gram-negativas com membrana externa. Combinações com outros agentes ampliam espectro | Concentrações elevadas necessárias para biofilmes maduros; podem ser corrosivos para metais; menos eficazes em pH > 5; combinações e calor aumentam eficácia; custo pode ser limitante |
Fontes: Hua & Zhu (2024); revisões de McDonnell & Russell (1999); Lequette et al. (2010). QAC = compostos de amônio quaternário; PAA = ácido peracético; THMs = trihalometanos; HAAs = ácidos haloacéticos.
A Tabela 2 revela que os desinfetantes mais eficazes contra biofilmes são aqueles com mecanismos de ação múltiplos e inespecíficos (como ozônio e PAA), justamente porque são mais difíceis de ser evitados por mecanismos de resistência. Já desinfetantes com mecanismo único e específico (como QAC, que age principalmente na membrana) são mais vulneráveis ao desenvolvimento de resistência.
Um dado preocupante abordado na revisão é a resistência cruzada: a tolerância de L. monocytogenes ao QAC está mediada pelos mesmos genes de bomba de efluxo (como bcrABC) que conferem resistência a antibióticos como ampicilina e tetraciclina. Isso significa que o uso inadequado de QAC em instalações alimentícias pode, paradoxalmente, contribuir para o surgimento de cepas de L. monocytogenes resistentes a tratamentos médicos.
A revisão sistematiza os principais fatores que reduzem a eficácia dos desinfetantes contra biofilmes de L. monocytogenes nas condições reais industriais:
Os ácidos orgânicos representam uma categoria importante de agentes antibiofilme com relevância crescente na indústria alimentícia, especialmente em contextos onde há pressão regulatória para redução de desinfetantes sintéticos ou em aplicações de alimentos orgânicos e naturalmente processados. Ácido lático, acético, cítrico e propiônico são os mais estudados contra L. monocytogenes.
Seu mecanismo principal é elegante em sua simplicidade: na forma não dissociada (ácido fraco em ambiente ácido), eles são lipossolúveis e atravessam passivamente a membrana celular hidrofóbica. Dentro da célula, em pH mais neutro, dissociam-se e liberam H⁺, acidificando o citoplasma e inibindo enzimas essenciais ao metabolismo bacteriano.
TABELA 3. Eficácia dos ácidos orgânicos na desinfecção de biofilmes de L. monocytogenes
| Ácido Orgânico | Concentração Testada | Superfície | Tempo de Contato | Redução (log UFC/cm²) | Condições / Observações Relevantes |
| Ácido lático | 2% | Aço inox | 5 min | 2,0 – 4,5 | Maior eficácia a 50–55°C; atividade potencializada por calor; eficaz contra biofilmes de 24–48h |
| Ácido lático | 2% | PVC | 5 min | 1,5 – 3,0 | Eficácia reduzida em superfícies porosas; rugosidade compromete penetração |
| Ácido lático | 5% | Aço inox | 10 min | 3,5 – 5,5 | Alta concentração necessária para biofilmes maduros (7 dias); eficácia dose-dependente |
| Ácido lático (spray) | 3% | Aço inox | 2 min | 2,5 – 4,0 | Aplicação por aspersão melhora distribuição e cobertura superficial uniforme |
| Ácido acético | 3% | Aço inox | 5 min | 1,8 – 3,5 | Eficácia potencializada em combinação com calor; odor limitante para uso prático |
| Ácido acético | 5% | PVC | 10 min | 2,0 – 4,0 | Melhor resultado em biofilmes jovens (<48h); biofilmes maduros mais resistentes |
| Ácido acético (névoa) | 5% | Borracha | 5 min | 1,2 – 2,5 | Aplicação em névoa preferível; menor eficácia em superfícies rugosas como borracha |
| Ácido cítrico | 2% | Aço inox | 5 min | 1,5 – 3,0 | Ação quelante de íons metálicos complementa mecanismo antimicrobiano; quelação de Ca²⁺ e Mg²⁺ desestabiliza membrana |
| Ácido propiônico | 2% | Aço inox | 10 min | 1,5 – 2,8 | Menos estudado isoladamente; atividade promissora contra biofilmes; frequentemente usado em combinações |
| Ácido lático + ácido cítrico (combinação) | 1% + 1% | Aço inox | 5 min | 3,0 – 5,5 | Sinergismo documentado: combinação supera ação individual de cada ácido isolado; mecanismos complementares |
| Ácido lático + Nisina (bacteriocina) | 2% + 500 UI/mL | Aço inox | 10 min | 4,5 – 6,0 | Combinação de bioconservante natural + ácido: excelente resultado contra L. monocytogenes; Nisina permeabiliza membrana |
| Ácido cítrico + QAC | 1% + 200 ppm | Aço inox | 2 min | 3,5 – 5,0 | Combinação química: quelação + perturbação de membrana aumenta penetração no biofilme |
| Ácido lático + calor (55°C) | 2% + temperatura | Aço inox / PET | 3 min | 4,0 – 6,0 | Temperatura sinergiza com ácido: desnaturação protéica + acidificação intracelular simultâneas |
| Ácido acético + bacteriófago | 3% + 10⁸ PFU/mL | Aço inox | 30 min | 5,0 – 7,0 | Combinação antibiofilme inovadora: bacteriófago degrada EPS, facilitando penetração do ácido |
Fontes: Hua & Zhu (2024); Serio et al. (2020); revisão sistemática de estudos 2010–2024. UFC = unidades formadoras de colônias; QAC = compostos de amônio quaternário; EPS = substâncias poliméricas extracelulares; PFU = unidades formadoras de placa. Resultados dependem da cepa, pH do meio, temperatura e estado de maturação do biofilme.
A Tabela 3 demonstra que os ácidos orgânicos, utilizados isoladamente, apresentam eficácia moderada contra biofilmes maduros de L. monocytogenes. No entanto, suas combinações, especialmente com calor, bacteriocinas como nisina, ou com outros desinfetantes como QAC, produzem resultados de destaque, atingindo reduções superiores a 5 log UFC/cm², equivalentes à eliminação de 99,999% das células bacterianas.
Particularmente promissora é a combinação de ácido lático com nisina (uma bacteriocina produzida por Lactococcus lactis): enquanto o ácido lático acidifica o ambiente e o interior celular, a nisina age diretamente na membrana, formando poros que comprometem sua integridade. Os dois mecanismos se complementam de forma sinérgica, resultando em eficácia superior a qualquer um dos agentes isolados.
O calor é um dos métodos mais antigos e confiáveis de desinfecção de superfícies. A revisão documenta que L. monocytogenes é relativamente sensível ao calor úmido: imersão em água a 77°C por 2 minutos resulta em reduções significativas. Em plantas de laticínios, sistemas CIP (Clean-in-Place) utilizam água a 54–93°C com detergentes alcalinos e ácidos para limpeza e sanitização de tanques e tubulações.
A estratégia de barreiras que combina PAA com vapor saturado (130°C, 30 segundos) foi testada por Hua e Zhu em um estudo experimental específico: a combinação produziu reduções superiores a 5 log UFC/cm² em aço inox, PET e borracha, superando os resultados de cada método isolado. O vapor penetra em microestrutura das superfícies onde desinfetantes químicos líquidos têm dificuldade de chegar, enquanto o PAA prévia ou subsequentemente atinge as células que o vapor não eliminou completamente.
A radiação UV (especialmente UV-C, 254 nm) danifica o DNA bacteriano formando dímeros de timina que impedem a replicação celular. Contra biofilmes de L. monocytogenes, estudos documentam reduções de 2 a 5 log CFU/cm² dependendo da dose de energia (mJ/cm²) e da espessura do biofilme. LEDs UV, uma tecnologia mais recente, oferecem vantagens de menor consumo energético, maior vida útil e possibilidade de emissão em múltiplos comprimentos de onda.
A limitação principal do UV para biofilmes é a atenuação: as camadas externas do biofilme absorvem e dispersam a radiação, reduzindo significativamente a dose que chega às células nas camadas profundas. Por isso, UV é mais eficaz contra biofilmes finos (recém-formados) e como complemento de outros tratamentos.
O ultrassom de alta intensidade gera cavitação acústica, formação e colapso violento de microbolhas, que produz forças mecânicas capazes de dispersar e fragmentar biofilmes. Estudos citados na revisão mostram reduções de 2 a 4 log UFC/cm² com ultrassom isolado, e resultados sinérgicos significativos quando combinado com desinfetantes químicos. A cavitação física fragmenta a matriz EPS do biofilme, aumentando a penetração e eficácia dos biocidas.
Bacteriófagos são vírus que infectam especificamente bactérias. Sua especificidade para L. monocytogenes os torna candidatos atraentes para biocontrole em ambientes alimentícios: matam a bactéria-alvo sem afetar outros microrganismos benéficos ou as superfícies. A revisão cita estudos demonstrando eficácia de bacteriófagos contra biofilmes de L. monocytogenes por dois mecanismos:
Produtos comerciais de bacteriófagos são já aprovados para uso em superfícies de contato com alimentos em vários países. A combinação de bacteriófagos com ácidos orgânicos (como documentado na Tabela 3) representa uma abordagem altamente promissora: o fago degrada a matriz EPS do biofilme, facilitando a penetração do ácido às células sobreviventes.
Bacteriocinas são peptídeos produzidos por bactérias que inibem ou matam espécies relacionadas. A nisina, produzida por Lactococcus lactis, é a bacteriocina com status GRAS (Generally Recognized As Safe) mais amplamente utilizada em alimentos e tem demonstrado atividade antibiofilme significativa contra L. monocytogenes.
Seu mecanismo contra L. monocytogenes é particularmente eficaz: a nisina se liga ao lipídeo II, um precursor essencial da síntese de parede celular, e forma poros na membrana que causam vazamento de íons e macromoléculas, levando à morte celular. A combinação com ácido lático, conforme documentado na Tabela 3, potencializa esse efeito de forma significativa.
Bactérias ácido-lácticas (BAL) como Lactobacillus spp., Leuconostoc spp. e Pediococcus spp. produzem naturalmente ácido lático, bacteriocinas e peróxido de hidrogênio, criando um ambiente hostil para L. monocytogenes. Sua aplicação como culturas protetoras em superfícies ou em alimentos específicos representa uma abordagem de biocontrole com potencial para uso prático.
O princípio das barreiras múltiplas (hurdle technology) propõe que a combinação de múltiplos fatores adversos, cada um insuficiente isoladamente para matar o microrganismo, pode, em conjunto, superar a resistência do biofilme. Esse conceito é especialmente relevante para L. monocytogenes, onde nenhum método isolado garante a eliminação completa de biofilmes estabelecidos.
Exemplos documentados na revisão incluem:
A revisão dedica atenção crescente às abordagens nanotecnológicas para o controle de L. monocytogenes. Nanopartículas de prata, óxido de zinco e dióxido de titânio demonstram atividade antibiofilme significativa, e seu encapsulamento em materiais de superfície representa uma abordagem preventiva — inibir a formação do biofilme antes que ele se estabeleça.
Revestimentos superficiais com nanopartículas antimicrobianas, polímeros antiadesão, superfícies de inspiração biomimética e modificações de superfície (como o revestimento com dióxido de silício nanométrico em aço inox) estão sendo investigados para criar superfícies inerentemente hostis à adesão de L. monocytogenes sem necessidade de desinfetantes externos.
Os sistemas CIP (Clean-in-Place) e COP (Clean-Out-of-Place) são a espinha dorsal da higienização industrial em laticínios, cervejarias e outras instalações de processamento líquido. A revisão documenta que a eficácia desses sistemas contra biofilmes de L. monocytogenes pode ser significativamente melhorada por:
A revisão enfatiza que nenhuma estratégia de controle é completa sem um programa robusto de monitoramento ambiental. O isolamento e a tipagem molecular de L. monocytogenes a partir de amostras ambientais permitem:
Com base nos achados da revisão, um programa eficaz de controle de L. monocytogenes em instalações alimentícias deve contemplar:
A revisão ressalta que o design higiênico das instalações e equipamentos é a medida preventiva mais eficaz a longo prazo. Princípios de design higiênico incluem:
A revisão de Hua e Zhu (2024) deixa uma mensagem central inequívoca: o controle de biofilmes de Listeria monocytogenes em instalações alimentícias é um problema multifatorial que exige soluções multifatoriais. Não existe um único produto, tecnologia ou protocolo capaz de, por si só, garantir a eliminação completa deste patógeno persistente.
O que a ciência demonstra é que a combinação inteligente de métodos: química + física, desinfetantes com diferentes mecanismos, tratamentos preventivos + reativos, tecnologia + boas práticas operacionais, é o caminho mais robusto para minimizar o risco.
Para a indústria alimentícia, isso significa investir em três frentes simultâneas:
A listeriose não precisa ser uma fatalidade no cenário alimentar. Com o conhecimento que a ciência nos oferece, como o compêndio extraordinariamente detalhado que Hua e Zhu (2024) nos presenteiam nesta revisão, temos ferramentas para enfrentar este desafio com competência e responsabilidade.
Keli Cristina de Lima Neves é consultora especialista em segurança dos alimentos, fundadora do blog SEMEAR , da BRQuality Consultoria e Laboratório e da Estilo Food Safety.
Contato: keli@brqualityconsultoria.com.br Outros contatos: Instagram:@kelilimaneves Linkedin: Keli Lima Neves
Hua, Z. & Zhu, M.-J. (2024). Comprehensive strategies for controlling Listeria monocytogenes biofilms on food-contact surfaces. Comprehensive Reviews in Food Science and Food Safety, 23(3), e13348. https://doi.org/10.1111/1541-4337.13348
Arthur et al. (2025) Comprehensive Reviews in Food Science and Food Safety, 24, e70083 | Tuytschaever et al. (2023) Comprehensive Reviews in Food Science and Food Safety, 22(5):3910–3950 | Daeschel et al. (2022) | Ferreira et al. (2014) Journal of Food Protection, 77(1):150–170
Fonte da Imagem: IA