Conhecimento que Transforma
a Segurança dos Alimentos!
Juntos, semeamos conhecimento para colher um futuro mais seguro

Há uma pergunta que precisa ser feita com mais frequência e com mais honestidade dentro das organizações que trabalham com alimentos: se treinamos tanto, por que ainda erramos tanto?
A indústria alimentícia investe anualmente em capacitações, cursos, certificações e auditorias. Os colaboradores recebem manuais, assistem a vídeos, assinam listas de presença. E ainda assim, as não conformidades se repetem. Os surtos alimentares continuam acontecendo. A confiança do consumidor segue em queda.
Algo nessa equação não está funcionando. E esse algo não é pequeno.
Os dados são difíceis de ignorar. A pesquisa anual do International Food Information Council (IFIC), que acompanha a percepção dos consumidores americanos sobre a segurança dos alimentos há duas décadas, revelou em 2025 um dado alarmante: apenas 55% dos americanos disseram sentir algum nível de confiança na segurança do fornecimento de alimentos dos Estados Unidos, contra 78% registrados em 2012, quando a série histórica começou.
Nos últimos dois anos consecutivos, essa confiança caiu de forma significativa, de 70% em 2023 para 62% em 2024, e para 55% em 2025.
Entre os motivos apontados por quem desconfia do sistema, 59% acreditam que o lucro é colocado acima da segurança, e 54% não acreditam que todos os envolvidos na cadeia alimentar trabalham de forma coordenada para garantir a segurança dos alimentos.
Esses números não são um alerta sobre a qualidade dos alimentos em si. São um alerta sobre confiança. E confiança se constrói ou se destrói pela percepção de que existe responsabilidade real por trás de cada decisão tomada na cadeia alimentar.
Não é apenas o consumidor que percebe a falha. As próprias empresas do setor já reconhecem que seus programas de treinamento deixam a desejar.
A 8ª edição do Global Food Safety Training Survey, pesquisa global conduzida em parceria por organizações como Intertek Alchemy, Campden BRI, BRCGS e outras referências do setor, revelou um cenário preocupante: aproximadamente 25% dos respondentes avaliaram a qualidade do seu programa de treinamento como “insuficiente”, enquanto três quintos o classificaram apenas como “suficiente”.
O dado mais contundente da pesquisa, porém, é outro: quase três quartos dos respondentes concordaram ou concordaram fortemente com a afirmação de que, apesar dos esforços de treinamento, ainda há colaboradores que não seguem os protocolos estabelecidos no chão de fábrica.
Pense nisso por um momento. Setenta e cinco por cento (75%) das empresas treinam e sabem que o treinamento não está funcionando.
Os três maiores desafios identificados foram:
Note que nenhum desses obstáculos é técnico. São todos humanos, culturais, organizacionais. E é exatamente aí que o problema começa.
Há um equívoco profundo na forma como a maioria das organizações estrutura seus programas de capacitação em segurança de alimentos. O modelo dominante assume que, se o colaborador souber o que fazer, ele fará. Que o conhecimento técnico gera comportamento. Que informação equivale a mudança.
Não equivale.
Como já discutimos em artigos anteriores aqui no blog Semear, a responsabilidade na manipulação de alimentos não é uma habilidade que se instala com um curso de oito horas. Ela é, em sua essência, um atributo de pessoas que carregam determinados valores, pessoas que agem com cuidado porque acreditam que o cuidado importa, não porque o checklist exige.
Isso não significa que o treinamento técnico seja inútil. Significa que ele deve ser combinado e muitas vezes é a última etapa de um processo muito mais profundo e não a primeira. Antes de ensinar a forma correta de higienizar as mãos ou controlar a temperatura de armazenamento, precisamos responder a perguntas mais fundamentais:
A diferença entre essas perguntas é a diferença entre um colaborador que age quando ninguém está olhando e um que só age quando está sendo auditado.
Andrew Thomson e Matthew Wilson, pesquisadores da área de segurança de alimentos, escreveram recentemente um artigo provocador na Food Safety Magazine: toda a cadeia alimentar passou décadas estruturando seus treinamentos em torno do cumprimento de requisitos regulatórios e não em torno das pessoas que consomem os alimentos. Os consumidores estão ausentes dos programas de educação e treinamento: suas necessidades, vulnerabilidades, expectativas e confiança raramente fazem parte da conversa.
Para muitos no setor, a segurança de alimentos tornou-se um exercício de “marcar a caixinha”. Os colaboradores completam treinamentos online mal projetados, predominantemente baseados em conteúdo teórico, com pouca supervisão e sem responsabilização real. Muitos desses programas ignoram princípios básicos de aprendizagem de adultos, entregando conteúdo de forma passiva e genérica que não engaja os colaboradores de maneira significativa.
A segurança dos alimentos é resultado de cultura, comportamento, liderança e tomada de decisão, não apenas de documentação ou do monitoramento de temperaturas em câmaras frias.
Essa é uma afirmação que vale repetir: segurança de alimentos é um resultado cultural, não um resultado de treinamento.
Aqui no Semear, temos falado há anos sobre o que chamamos de dimensões da cultura de segurança dos alimentos. O senso de responsabilidade é uma delas e talvez a mais desafiadora de desenvolver.
A responsabilidade genuína não tem hora marcada. A pessoa verdadeiramente responsável não age diferente quando o fiscal está presente ou ausente, quando a câmera está ligada ou desligada, quando o mês está no começo ou no final. Ela age com cuidado porque o cuidado é parte de quem ela é.
Esse perfil não é criado em treinamentos. Ele é reconhecido, cultivado e sustentado por uma cultura organizacional que o valoriza.
Por isso, quando uma empresa se pergunta “como vamos mudar o comportamento dos nossos manipuladores de alimentos?”, a resposta raramente começa com um novo curso. Começa com perguntas como:
Só depois de trabalhar essas camadas é que o treinamento técnico encontra terreno fértil para transformar conhecimento em comportamento.
Um dos movimentos mais necessários na formação de manipuladores de alimentos é humanizar o risco. Sair da abstração normativa “temperatura acima de X graus por mais de Y horas gera risco de contaminação” e aproximar o colaborador da realidade concreta: existe uma criança, um idoso, uma pessoa imunocomprometida que vai comer o que você está preparando agora.
Essa virada de perspectiva não é apenas pedagógica. É ética. E é transformadora.
Quando o manipulador de alimentos passa a enxergar sua função não como um conjunto de procedimentos a cumprir, mas como um ato de cuidado com pessoas reais, algo muda. A motivação para agir corretamente deixa de ser externa: o medo da auditoria, o medo da demissão e passa a ser interna: a consciência de que uma falha pode machucar alguém.
Isso é o que separa treinamento de formação. Treinamento ensina procedimentos. Formação constrói valores.
A ineficiência dos treinamentos em segurança dos alimentos não é um problema de conteúdo. É um problema de sequência, de profundidade e de propósito.
Precisamos parar de tratar o treinamento técnico como o ponto de partida e começar a reconhecê-lo como a etapa de um processo que envolve cultura, liderança, valores e perspectiva.
Precisamos incluir o consumidor na conversa, não como dado estatístico de incidência de doenças transmitidas por alimentos, mas como pessoa real, com nome e família, cujo bem-estar depende das decisões tomadas dentro de cada cozinha, cada fábrica, cada ponto da cadeia.
E precisamos ter honestidade para reconhecer que, enquanto tratarmos responsabilidade como conteúdo de treinamento e não como dimensão de cultura, continuaremos assinando listas de presença, emitindo certificados e colhendo não conformidades.
A queda na confiança do consumidor não é acidente. É consequência de um modelo que prioriza a aparência de segurança em vez de sua substância.
Está na hora de mudar o que plantamos para poder colher resultados diferentes.
IFIC Food & Health Survey 2025
Global Food Safety Training Survey 2024 (Intertek Alchemy/Campden BRI)