Craque sozinho não ganha Copa (nem garante alimento seguro)

Craque sozinho não ganha Copa (nem garante alimento seguro)

Neste final de semana, o mundo inteiro vai parar. No domingo, dia 19 de julho, o MetLife Stadium, em Nova Jersey, recebe a grande final da Copa do Mundo de 2026, entre Argentina e Espanha, um Mundial que, mais uma vez, provou que o futebol não se ganha com um craque isolado, por mais genial que ele seja.

E é justamente essa lição que eu trago para dentro das empresas quando falo sobre segurança dos alimentos: time comprometido ganha campeonato. Craque sozinho, não.

Tive a grata oportunidade de realizar uma palestra em uma empresa, exatamente neste momento, enquanto a copa acontecia e minha função era engajar o time para a segurança dos alimentos, ao menos é isso que eu ouço quando me chamam para um treinamento de Boas Práticas de Fabricação e assim me vejo comprometida em fazer com que cada pessoa entenda que não é sobre lavar as mãos e cumprir procedimento, é sobre comprometimento, é sobre cuidado, é sobre salvar vidas. Então, fui estudar sobre algumas copas e me deparei com documentários sobre a copa de 1970 e de 1994, onde ficou nítido para mim um detalhe importantíssimo: craque sozinho não ganha campeonato!

1970: o time mais talentoso da história — e o mais coletivo

Quando se fala em seleção com “excesso de craques”, a referência é sempre a mesma: o Brasil de 1970. Pelé, Gérson, Jairzinho, Rivellino, Tostão, Clodoaldo, Carlos Alberto Torres. Uma geração tão marcante que a revista World Soccer a elegeu a melhor seleção de todos os tempos.

Mas o que poucos lembram é que aquele time não venceu sozinho na genialidade individual. O Brasil de 1970 foi a primeira e única seleção a vencer todos os seus jogos das eliminatórias e também no Mundial, com seis vitórias e 23 gols a favor nas eliminatórias. Foram 19 gols marcados nos seis jogos da Copa, uma média de 3,2 gols por partida, além do inédito tricampeonato e da posse definitiva da Taça Jules Rimet.

O gol mais simbólico dessa campanha não foi de um craque brilhando sozinho. Foi um gol coletivo. No lance final da decisão contra a Itália, dez dos onze jogadores do time brasileiro tocaram na bola antes do gol de Carlos Alberto Torres, considerado pela BBC o gol mais bonito de todos os tempos. Pelé teve participação decisiva na jogada, mas o gol começou lá atrás, passou pelo meio, passou pela ponta, e só então chegou ao capitão. Ninguém fez aquilo sozinho.

E tinha comprometimento além da técnica. Antes da conquista, aquela seleção foi contestada, questionada e teve treinador trocado às vésperas da Copa. O Brasil vivia um momento muito difícil e cada jogador vivia seus problemas pessoais. Mesmo assim, o grupo se manteve unido em torno de um objetivo comum, definindo junto o esquema tático que usaria em campo. Craque, ali, era função de equipe, não de indivíduo.

1994: quando o coletivo venceu o talento isolado

Se 1970 é lembrada pela genialidade, 1994 é lembrada pela entrega e superação coletiva acima do talento individual.

O Brasil chegava à Copa de 1994 depois de 24 anos sem título mundial, com a torcida e a imprensa desconfiadas de que aquele time conseguiria quebrar o jejum. Era um grupo experiente e tranquilo, formado majoritariamente por jogadores que já haviam disputado a Copa de 1990 juntos.

O Brasil julgava o técnico e os jogadores. Diferente da equipe-arte de 1970, o time de Parreira apostava em uma estrutura mais compacta e disciplinada: Dunga organizando o meio-campo, Mauro Silva protegendo a defesa, Taffarel dando segurança no gol, e Romário e Bebeto decidindo as partidas no ataque. Menos espetáculo, mais entrega coletiva e foi exatamente essa entrega que faltava havia mais de duas décadas.

O mais impactante, porém, é o que aconteceu fora de campo. Pouco antes da Copa, o pai de Romário foi sequestrado no Rio de Janeiro, e o atacante chegou a declarar que não disputaria o Mundial caso o pai não fosse libertado. Depois de dias de tensão, seu pai foi solto e Romário voltou a jogar, carregando uma dor pessoal profunda dentro de um propósito coletivo. Branco, estava desacreditado, machucado mas com disciplina e determinação para fazer sua parte, Bebeto não viu seu filho nascer, homenageou em campo e o Brasil homenageou com ele. Cada jogador com sua dor, mas todos remando para o mesmo lado e é assim na vida, no nosso dia-a-dia, nas nossas responsabilidades profissionais.

A final não foi decidida por brilho individual. Foi decidida nos pênaltis, depois de 120 minutos de entrega física de onze homens exaustos, com o goleiro Taffarel defendendo a cobrança de Massaro e os craques italianos Franco Baresi e Roberto Baggio isolando a bola por cima do gol. O Brasil venceu porque o time inteiro segurou a pressão, não porque um craque resolveu sozinho.

Um ano de dor, Airton Senna havia nos deixado de forma trágica e os domingos já não eram mais os mesmos, uma nação que ama futebol estava há 24 anos sem ver seu país campeão e cada jogador ali, destacava uma missão: fazer o povo sorrir! Um compromisso que estava muito além do salário e do glamour, era um propósito e isso move vitórias.

Noruega 2026: o time que provou que um fenômeno não basta sozinho

E se alguém ainda duvida que futebol se ganha em equipe, a Copa de 2026 trouxe um exemplo atualíssimo: a Noruega.

Depois de 28 anos sem disputar uma Copa do Mundo, a Noruega se classificou para o Mundial de 2026 com uma campanha quase impecável nas eliminatórias, vencendo oito de oito jogos. O nome mais falado, claro, era Erling Haaland, artilheiro das eliminatórias europeias, com 16 gols em oito partidas.

Só que a Noruega não chegou longe no Mundial só por causa de Haaland. A geração atual é formada por um grupo equilibrado, com nomes como Martin Odegaard, Kristoffer Ajer, Oscar Bobb, Antonio Nusa, Alexander Sorloth e Jorgen Strand, sob o comando do técnico Stäle Solbakken. Foi esse conjunto e não um homem só que eliminou o Brasil nas oitavas de final e levou a seleção nórdica à sua melhor campanha histórica no torneio, terminando na quinta colocação geral entre 48 seleções.

É claro que não vamos esquecer o quanto Haaland brilhou dentro e fora de campo, mas, ele também sabe, o quanto o time todo jogou. Cada defesa, cada jogada planejada, cada passe perfeitamente entregue.

Haaland fez a diferença técnica, sem dúvida, tornou-se o sexto jogador da história a marcar mais de um gol em cada uma de suas duas primeiras partidas em Mundiais. Mas o resultado só aconteceu porque havia um time inteiro, disciplinado e organizado, sustentando esse talento. Um craque sem estrutura ao redor não teria eliminado ninguém.

As surpresas de 2026: o coletivo decide, sempre

Esta edição da Copa reservou reviravoltas que reforçam o mesmo ponto. O Brasil, comandado por Carlo Ancelotti, teve sua pior campanha em 36 anos, eliminado nas oitavas de final justamente pela Noruega, com direito a pênalti perdido no primeiro tempo.

E, de forma rara na história do torneio, as quatro seleções que chegaram à semifinal de 2026: França, Espanha, Inglaterra e Argentina, já haviam sido campeãs mundiais antes, um cenário que só havia se repetido em 1970 e 1990. Ou seja: mesmo entre gigantes, quem chegou mais longe foi quem sustentou consistência coletiva ao longo de sete jogos, não quem teve, isoladamente, o melhor jogador em campo.

Na semifinal, a Argentina superou a Inglaterra de virada e não teve gol do Messi, foi mais um jogo na raça, assim como no jogo anterior, Argentina não focou em estar perdendo ou no tempo que faltava, não considerou que estava perdido, lutou e ganhou de virada, com gols de Enzo Fernández e Lautaro Martínez, garantindo vaga na decisão contra a Espanha, que havia derrotado a França na outra semifinal.

E o campeão? Saberemos domingo!

O que isso tem a ver com segurança dos alimentos?

Tudo.

Assim como um time cheio de craques só ganha quando joga com propósito coletivo, uma empresa só entrega alimento seguro quando todos os elos da cadeia, da recepção da matéria-prima ao balcão, da cozinha à gôndola, jogam pelo mesmo objetivo.

Não adianta ter o melhor coordenador de qualidade se o manipulador de alimentos não lava as mãos. Não adianta ter o procedimento operacional padrão mais bem escrito se ninguém segue. Não adianta cobrar comprometimento se a liderança não dá o exemplo primeiro.

E aqui mora um ponto que eu gosto de trazer para reflexão nos treinamentos: assim como torcemos para que os jogadores se doem, sofram junto, se ajudem e larguem o ego pelo coletivo, também nós somos, o tempo todo, o jogador que alguém está esperando que se doe. O cliente espera comprometimento do atendente. O consumidor espera comprometimento de quem manipula seu alimento. A empresa espera comprometimento de cada colaborador. Assim como cobramos dos craques em campo, alguém, em algum lugar, está torcendo pelo nosso comprometimento  e talvez sofrendo com a nossa falta dele.

A pergunta que fica, para este fim de semana de final: em qual time você está jogando? No do craque isolado, competente sozinho, mas que não olha para o lado? Ou no time que se compromete de verdade, que sofre pela causa e faz o outro se sentir seguro para atuar também?

Segurança dos alimentos, assim como futebol, não se ganha sozinho. Se ganha em equipe, com propósito, comprometimento e a consciência de que, do outro lado, sempre tem alguém contando com a nossa entrega.

Flores para os heróis de touca: Valorizando a profissão de segurança dos alimentos.

Keli Lima
Keli Lima

CEO da BR Quality e Estilo Food Safety, especialista em Qualidade e Segurança dos Alimentos. Atua como consultora, mentora e auditora líder em normas de Food Safety e ESG.

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