A conversa que eu sempre evito

A conversa que eu sempre evito

Algumas das conversas mais difíceis da minha vida nunca aconteceram.

Não porque elas não fossem necessárias.

Mas porque eu não conseguia iniciá-las.

Prefiro compartilhar boas notícias, comemorar resultados, celebrar conquistas, incentivar pessoas. Sempre foi muito mais natural para mim construir do que confrontar.

Durante muitos anos acreditei que maturidade era conseguir resolver tudo sozinha.

Se há um problema, eu resolvo.

Se há uma preocupação, eu escondo.

Se alguma situação me machuca, eu processo internamente.

Prefiro deixar ir, me afastar, dar espaço, mas não confrontar.

Minha intenção nunca foi fingir que estava tudo bem. Eu apenas não queria dar trabalho para ninguém. Não queria preocupar pessoas. Não queria magoar ninguém.

Hoje percebo que, isso nunca foi demonstração de força. E talvez esse tenha sido um dos maiores aprendizados que o empreendedorismo me trouxe.

 

O empreendedorismo desmontou essa minha ilusão

Quando você trabalha sozinho, consegue evitar muitas conversas.

Quando lidera equipes, isso simplesmente deixa de ser uma opção.

Você depende de pessoas. Depende de sócios, clientes, fornecedores, colaboradores, parceiros.

E pessoas são diferentes. Pensam diferente. Erram. Interpretam diferente. Criam expectativas diferentes.

Mais cedo ou mais tarde, alguma conversa desconfortável será inevitável.

Foi então que descobri uma verdade que ninguém me contou quando comecei a empreender:

Não são as conversas difíceis que destroem relacionamentos. É a ausência delas.

 

Se para crescer um negócio, eu preciso do outro, significa que é preciso confiar, delegar, dividir responsabilidades e autoridades. As conversas difíceis deixaram de ser um incômodo evitável e passaram a ser parte do trabalho. Fundamentais, não opcionais.

 

O que os dados dizem sobre o meu desconforto

Descobri, ao pesquisar sobre isso, que meu desconforto tem nome e tem estatística. Não sou a única pessoa que prefere engolir um problema a colocá-lo em cima da mesa.

Um estudo da consultoria americana Bravely, o Understanding the Conversation Gap, mostra que 70% dos colaboradores evitam discussões difíceis no trabalho, sejam com colegas, supervisores ou subordinados diretos. Entre esses profissionais, apenas 24% relatam confrontar diretamente as situações desafiadoras, enquanto 53% simplesmente as ignoram. E quando a conversa não é evitada por completo, ainda assim ela é adiada: dados da VitalSmarts (a empresa por trás do livro Crucial Conversations) mostram que 34% das pessoas adiam uma conversa difícil por pelo menos um mês, e 25% admitem tê-la adiado por mais de um ano.

Isso confirma algo que aprendi na prática: quando finalmente a conversa acontece semanas ou meses depois do momento certo, ela pode não ser mais uma conversa de ajuste é sim uma conversa de ruptura. O que corre tarde, corre mal.

O livro Conversas difíceis, de Douglas Stone, Bruce Patton e Sheila Heen, mostra que praticamente todas as conversas difíceis possuem três conversas acontecendo ao mesmo tempo:

  • a conversa sobre os fatos (“o que aconteceu”);
  • a conversa sobre os sentimentos (“como isso me afetou”);
  • a conversa sobre identidade (“o que isso diz sobre mim”).

É justamente essa terceira que costuma nos paralisar. Porque ninguém quer parecer incompetente, injusto, ingrato ou cruel.

 

O preço do silêncio nos negócios

Se no dia a dia empresarial o silêncio já custa caro, entre sócios ele pode ser fatal.

A CB Insights, uma das referências mais citadas em estudos sobre mortalidade de startups, analisou dezenas de “post-mortems” de negócios que fecharam as portas e identificou que cerca de 23% das falhas são atribuídas a equipes inadequadas, conflitos internos ou má gestão de equipe, um número que rivaliza com a falta de dinheiro como principal causa de fechamento. Um levantamento mais recente, de 2026, é ainda mais direto: 65% das startups que falham no Brasil morrem por conflito entre sócios, contra 38% por falta de mercado.

O que esses conflitos têm em comum, na maioria dos casos, não é a discordância em si, é a ausência de uma conversa que deveria ter acontecido antes. Uma pesquisa da FGV EAESP com startups aceleradas identificou justamente isso: a maior parte das startups que fracassaram durante ou após o processo de aceleração sucumbiu por causa de conflitos entre os sócios fundadores, não por falha de produto ou de mercado.

Amy Edmondson, professora da Harvard Business School, demonstrou em décadas de pesquisa que equipes com alta segurança psicológica relatam mais erros. Quando se olha superficialmente, parece ruim. Na verdade, essas equipes não cometem mais erros. Elas apenas falam sobre eles. E é justamente por isso que aprendem mais rápido e apresentam melhores resultados ao longo do tempo. Essa conclusão é extremamente poderosa e eu costumo falar que se forcarmos no “o que” e não no “quem” ou no “como”, torna-se mais fácil resolver os problemas. Achar o culpado, ficar na defensiva, definitivamente, não resolve.

Eu precisei conduzir conversas difíceis desde muito nova e desde sempre, lembro de evita-las, mas, existiam as inevitáveis, que não partiam de mim: uma redução de quadro por corte de custos, uma reclamação de outra área sobre comportamento inadequado de um colaborador da minha equipe, indicadores não cumpridos, para estas eu me preparava, algumas foram desastrosas, muitas me senti péssima depois que aconteceram, outras fiquei orgulhosa do resultado, com todas, eu aprendi.

 

O que a ciência dos relacionamentos me ensinou

O psicólogo John Gottman passou décadas estudando casais no que ficou conhecido como o “Laboratório do Amor”. Ao observar apenas alguns minutos de conversa entre duas pessoas, ele e sua equipe conseguiram prever, com precisão de 93%, quais casamentos terminariam em divórcio, não pela presença de conflito, mas pela forma como o conflito era conduzido.

O que mais me marcou nessa pesquisa não foi identificar os padrões destrutivos de comunicação (crítica, desprezo, defensividade e o silêncio evasivo), mas entender algo mais contraintuitivo: evitar as discussões pode ser mais prejudicial ao relacionamento do que o próprio conflito. Casais que nunca discutem não são casais sem problemas, são casais que estão, aos poucos, deixando de se conectar de verdade.

É exatamente esse padrão que acontece nos negócios: a falta de conversa difícil não é neutra. Ela não “poupa” o relacionamento, ela o corrói silenciosamente, até que um dia parece ter acabado do nada. Mas nunca é do nada. É de tudo que não foi dito.

 

Por que eu fugia e por que parei

Entendo hoje que fugir de conversas difíceis nunca foi sobre covardia. Era sobre uma crença profunda de que resolver sozinha era mais forte, mais responsável, menos incômodo para o outro e menos desconforto para mim. Passei anos absorvendo problemas para não preocupar ninguém.

O que o empreendedorismo me ensinou foi o oposto: crescer é, necessariamente, um exercício coletivo. E não existe construção coletiva sem atrito coletivo. Toda vez que eu engolia um desconforto para “não incomodar ou não magoar”, eu estava, na prática, tirando do outro a chance de crescer, de entender o que estava acontecendo, de fazer parte da solução. O outro pode não querer, mas eu não posso tirar a chance de ninguém e nem mesmo de mim, pois dividir é também somar, é aliviar uma pressão interna de coisas não ditas, um fardo que carregamos mais porque queremos do que porque precisamos.

A pesquisa mais longeva já feita sobre bem-estar humano, o Estudo Harvard sobre Desenvolvimento Adulto, que acompanha vidas há mais de 80 anos, chegou a uma conclusão que reforça isso: não é fama nem dinheiro que traz felicidade, mas a qualidade dos relacionamentos e o diretor da pesquisa, Robert Waldinger, destaca que é particularmente importante construir esses laços justamente com quem se tem algum conflito. Não apesar do conflito. Por causa dele.

 

Como eu me preparo hoje

Não deixei de sentir desconforto. Ainda não gosto de magoar, ainda não gosto de dividir problemas. Mas mudei a forma como me relaciono com esse desconforto: em vez de fugir dele, eu me preparo para ele.

Algumas coisas que aprendi no caminho:

Não falo no calor da emoção. Escuto muita coisa que talvez nem devesse escutar ou processar, mas dou o tempo necessário antes de responder. A ciência confirma essa intuição: pesquisas em psicologia social mostram que o comportamento humano é frequentemente moldado mais pelas emoções antecipadas, o que esperamos sentir se agirmos, do que pela realidade da situação. Esperar não é fraqueza; é dar espaço para que a emoção antecipada não decida por mim.

No livro Conversas cruciais, os autores mostram que, sob pressão, nosso cérebro tende a fazer apenas duas coisas:

  • fugir da conversa;
  • ou atacar.

Pouquíssimas pessoas conseguem permanecer no meio do caminho: falar com honestidade e respeito ao mesmo tempo e isso exige treino.

Escolho o momento e o lugar. Uma conversa difícil no corredor, apressada, entre uma reunião e outra, quase nunca dá certo. O ambiente em que a conversa acontece influencia diretamente o resultado dela.

Preparo o que vou dizer, com honestidade, não com estratégia de manipulação. Há uma diferença entre se preparar para ser assertivo e se preparar para “vencer” a conversa. A primeira gera confiança; a segunda, defensividade. Não escondo minhas vulnerabilidades e inclusive comunico sobre o desconforto daquele momento, isso também é honestidade.

Aceito que o problema não vai se resolver sozinho. Um dos padrões mais consistentes nas pesquisas sobre procrastinação de conversas difíceis é a ilusão de que, com tempo, o problema desaparece. Quando ele desaparece, quase sempre é porque outra coisa mudou, não porque foi resolvido ou, em breve ele se repete.

 

O que ficou claro para mim

A falta de conversa difícil não evita o rompimento, ela é, muitas vezes, a causa dele. Em casamentos, em sociedades, em sonhos compartilhados. O silêncio parece, no curto prazo, a opção mais gentil. No longo prazo, é quase sempre a mais cara.

Ainda sinto o desconforto de ter essas conversas. Talvez sempre sinta. Mas hoje sei que esse desconforto é o preço de construir algo: um negócio, um relacionamento, uma equipe. E, no fim, foi exatamente isso que o empreendedorismo me ensinou: eu não preciso deixar de sentir o desconforto para agir apesar dele. Só preciso parar de deixar que ele decida por mim.

Ainda preciso melhorar na vida pessoal, neste cenário, ainda evito muitas conversas difíceis ou , escolho as que eu quero ter.

 

Evoluir também significa aprender a conversar

Se eu pudesse voltar alguns anos, provavelmente diria para aquela versão mais jovem de mim: “Você não precisa carregar tudo sozinha.”

Pedir ajuda não é fraqueza.

Dividir um problema não significa transferir responsabilidade.

Ter uma conversa difícil não significa ser uma pessoa difícil.

Significa respeitar o outro o suficiente para não deixá-lo preso às suas próprias interpretações.

Hoje continuo preferindo celebrar conquistas.

Continuo gostando muito mais das boas notícias.

Mas aprendi que algumas das maiores demonstrações de respeito acontecem justamente nas conversas que ninguém quer ter.

Porque, muitas vezes, uma conversa desconfortável dura alguns minutos.

O silêncio pode destruir anos de confiança.

E talvez seja justamente por isso que coragem não seja a ausência do medo.

Talvez coragem seja escolher conversar, mesmo quando o coração preferiria permanecer em silêncio.

Keli Lima
Keli Lima

CEO da BR Quality e Estilo Food Safety, especialista em Qualidade e Segurança dos Alimentos. Atua como consultora, mentora e auditora líder em normas de Food Safety e ESG.

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