Fagoterapia como alternativa contra superbactérias

Fagoterapia como alternativa contra superbactérias

Um caso ocorrido na Bélgica chamou a atenção da comunidade médica após um menino de 12 anos, ativo e saudável, quase perder a vida em decorrência de um simples ferimento no tornozelo. Diante da gravidade do quadro, a equipe médica precisou recorrer a uma estratégia não convencional: uma terapia personalizada com bacteriófagos.

Após contrair fasciíte necrosante, doença causada pela bactéria Staphylococcus aureus, o menino foi internado e iniciou o tratamento convencional com antibióticos e intervenções cirúrgicas. No entanto, as medidas não foram suficientes para controlar a infecção, que destrói rapidamente tecidos moles e pode levar à morte.

Diante da falta de resposta ao tratamento tradicional, os médicos recorreram a uma terapia personalizada com bacteriófagos — vírus capazes de infectar e destruir bactérias específicas. O procedimento envolveu a aplicação de um coquetel composto por diferentes tipos de vírus, desenvolvido para atacar as bactérias identificadas no organismo do paciente.

Após a adoção da terapia, a infecção foi controlada e o paciente conseguiu se recuperar completamente.

A situação, registrada em 2024, ilustra o cenário que a Organização Mundial da Saúde vem alertando nos últimos anos: a redução da eficácia de tratamentos com antibióticos diante do avanço da resistência bacteriana.

O “Relatório Global de Vigilância da Resistência aos Antibióticos 2025” aponta que uma em cada seis infecções bacterianas já apresenta resistência aos tratamentos convencionais com antibióticos, reforçando a preocupação das autoridades de saúde com o crescimento da resistência antimicrobiana.

O que é a Fagoterapia? 

Atualmente, a fagoterapia tem sido utilizada como um tratamento complementar ao uso de antibióticos e é desenvolvida de forma personalizada, após a seleção dos fagos capazes de atacar especificamente a bactéria presente no paciente.

Os chamados “fagos” são vírus altamente específicos, incapazes de infectar células humanas, animais ou vegetais, já que reconhecem e atacam exclusivamente células bacterianas.

Para eliminar as bactérias, os fagos se ligam à superfície celular e injetam seu material genético no interior do microrganismo. A partir disso, passam a se multiplicar dentro da bactéria até provocar o rompimento da célula, destruindo de forma direcionada apenas o alvo microbiano.

Já existem casos que demonstram melhora clínica e redução da carga bacteriana em pacientes, inclusive em infecções graves que se tornaram resistentes aos antibióticos. No entanto, a fagoterapia ainda enfrenta desafios importantes, como a padronização dos tratamentos, a regulamentação sanitária e a produção em larga escala.

Resistência a antimicrobianos

Dados divulgados no final de 2025 pelo Ministério da Saúde apontam que mais de 33 mil mortes foram registradas no país ao longo do ano em decorrência da resistência aos antimicrobianos (RAM). Além de dificultar o tratamento de infecções, a RAM também compromete a segurança e a eficácia de procedimentos médicos essenciais, como cirurgias, transplantes e até tratamentos quimioterápicos. 

Fagoterapia no Brasil

A fagoterapia, embora seja considerada uma alternativa promissora, ainda enfrenta desafios para ser aplicada no Brasil, principalmente devido à ausência de regulamentações específicas tanto para o uso terapêutico quanto para a produção de bacteriófagos, que deve seguir rigorosamente as recomendações de Boas Práticas de Fabricação de Medicamentos. Atualmente, o uso de fagos no país é restrito a casos em que o paciente apresenta risco iminente de morte e não responde aos tratamentos convencionais.

Um dos casos conhecidos ocorreu no Brasil com o médico infectologista Roberto Badaró, que tratou um paciente infectado por Acinetobacter baumannii e Pseudomonas aeruginosa multirresistentes, que estava prestes a sofrer amputação do pé. O tratamento utilizou uma combinação de fagos previamente caracterizados associada a um antibiótico que, isoladamente, não havia apresentado resultados. Após a terapia, o quadro clínico evoluiu positivamente, a ferida cicatrizou e o paciente conseguiu manter o membro. Segundo o médico, a equipe aguarda aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária para iniciar um estudo clínico sobre a técnica.

Enquanto a fagoterapia não é regulamentada no país, alguns grupos brasileiros se movimentam para criar as bases de um futuro uso clínico dos fagos, um exemplo é o Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos (Cepid B3), que reúne mais de 160 pesquisadores das universidades de São Paulo (USP), Estadual de Campinas (Unicamp) e Estadual Paulista (Unesp), e Unifesp. 

Pesquisas sobre fagoterapia

O Cepid B3 mantém, há alguns anos, uma parceria científica com o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP), permitindo aos pesquisadores acesso a isolados clínicos de bactérias multirresistentes.

Atualmente, as instituições desenvolvem um protocolo de uso clínico da fagoterapia, com o objetivo de estruturar uma linha de pesquisa que começa pela caracterização genômica das cepas bacterianas e avança para testes sistemáticos com um acervo de fagos. Esse processo será essencial para identificar quais vírus são capazes de eliminar cada bactéria específica.

A expectativa é que, com um banco integrado de bactérias e bacteriófagos, seja possível responder de forma mais rápida e eficiente a infecções complexas e de difícil tratamento.

A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) também tem avançado nas pesquisas sobre fagoterapia. A infectologista Ana Cristina Gales já obteve aprovação de um protocolo no comitê de ética da instituição e, atualmente, busca viabilizar a produção de bacteriófagos seguindo critérios rigorosos de qualidade e Boas Práticas de Manufatura, etapa considerada essencial para o avanço dos estudos clínicos. 

O protocolo foi publicado na revista International Journal of Antimicrobial Agents dentro de um projeto que prevê testar a capacidade dos bacteriófagos de descolonizar pacientes portadores de bactérias multirresistentes, especialmente em ambientes hospitalares, antes que essas bactérias causem infecções graves. A proposta envolve selecionar fagos seguros e bem caracterizados, aplicá-los de forma controlada e monitorar sua capacidade de reduzir a proliferação bacteriana. Como os bacteriófagos são altamente específicos para determinadas bactérias, eles tendem a desaparecer do organismo humano após eliminarem o alvo infeccioso. Até o momento, os estudos publicados sobre fagoterapia não indicam a ocorrência de efeitos colaterais graves associados ao uso de fagos.

Outro projeto conduzido por Ana Cristina Gales, chamado FagoLimp, avalia o uso da pulverização de bacteriófagos na descontaminação de ambientes hospitalares. Em um dos três hospitais analisados, a estratégia conseguiu reduzir a contaminação ambiental por Klebsiella pneumoniae. Apesar dos resultados ainda serem limitados, o estudo indica que a pulverização de fagos pode contribuir para o controle microbiológico quando associada a outras técnicas de descontaminação hospitalar, reforçando a necessidade de novas pesquisas sobre a abordagem.

Utilização da Inteligência Artificial na pesquisa com bacteriófagos

O uso da inteligência artificial (IA) também começa a transformar as pesquisas envolvendo bacteriófagos. Um artigo publicado em setembro no repositório de preprints bioRxiv descreve a criação de um fago inteiramente projetado por IA, com um genoma sintético funcional. Os resultados apontam para um futuro em que bacteriófagos possam ser desenvolvidos sob medida para combater bactérias específicas. Caso essa abordagem se mostre segura e replicável, ela poderá ampliar rapidamente o repertório terapêutico disponível para o tratamento de infecções bacterianas resistentes.

Como um fago personalizado é preparado 

  • Caso recebido
    Identificação da bactéria responsável pela infecção e avaliação da necessidade terapêutica do paciente.
  • Biobanco
    Realização de uma triagem em um biobanco preexistente de bacteriófagos, permitindo selecionar rapidamente os candidatos mais promissores.
  • Combinação genótipo-fenótipo
    São realizadas análises genômicas e testes fenotípicos para identificar quais fagos apresentam maior potencial de eficácia contra a bactéria específica.
  • Seleção
    Os fagos com melhor desempenho são priorizados, acelerando o processo terapêutico.
  • Segurança por IA
    Modelos avançados de predição estrutural auxiliam na verificação da ausência de genes indesejados antes da seleção final.
  • Produção acelerada
    A formulação é produzida em um sistema otimizado, reduzindo o tempo de processamento.
  • Entrega e desfecho clínico
    O tratamento é encaminhado ao hospital e aplicado no paciente conforme orientação médica.

Utilização da fagoterapia em outros países 

A Bélgica tornou-se uma referência em fagoterapia após criar, em 2018, o primeiro marco regulatório voltado ao uso clínico de bacteriófagos. Desde então, o país permite que médicos prescrevam medicamentos à base de fagos produzidos sob demanda para cada paciente. Em uma instituição localizada em Bruxelas, mais de 200 casos já foram atendidos, com taxas superiores a 70% de melhora clínica. O país também conta com uma rede de produção certificada, protocolos estabelecidos e um banco de fagos disponível para triagem rápida. Apesar disso, a capacidade de atendimento ainda é limitada, o que leva à priorização de casos mais graves.

Em 2024, Portugal adotou um modelo regulatório semelhante ao belga, reconhecendo os fagos como produtos biológicos que podem ser manipulados em farmácias especializadas. Embora a implementação prática ainda esteja em andamento junto a hospitais e laboratórios, a mudança abriu caminho para o tratamento de infecções causadas por bactérias multirresistentes.

A Geórgia é considerada o país com maior tradição no uso de fagoterapia, acumulando uma experiência clínica considerada única no mundo e servindo de referência para outros centros europeus. No país, os fagos fazem parte do sistema de saúde: médicos podem prescrever os tratamentos e os cidadãos conseguem adquirir preparações diretamente em farmácias para condições cotidianas, como dor de garganta, muitas vezes sem necessidade de antibióticos.

Na América Latina, o Uruguai autorizou, no final de 2024, a terapia personalizada com bacteriófagos para o tratamento e prevenção de infecções causadas por bactérias multirresistentes.

Referência: Revista Pesquisa Fapesp 

 

Ana Clara Duarte
Ana Clara Duarte
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