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A presença de contaminantes químicos em alimentos infantis voltou ao centro do debate internacional após a divulgação de um programa estadual de monitoramento na Flórida, nos Estados Unidos. O primeiro relatório do programa teve como foco fórmulas infantis e trouxe dados sobre a presença de metais pesados em produtos amplamente comercializados.
Mais do que os números em si, esse movimento reacende uma discussão essencial para a segurança dos alimentos: como dados de monitoramento devem ser lidos, contextualizados e comunicados, especialmente quando envolvem alimentos destinados a bebês. Sem esse cuidado, o risco não está apenas no contaminante, mas na interpretação inadequada da informação.
O estado da Flórida anunciou o lançamento de um programa próprio de testes de contaminantes em alimentos no âmbito da iniciativa Healthy Florida First. O programa prevê investimento público para ampliar análises de diferentes contaminantes, incluindo metais pesados, pesticidas, microrganismos e microplásticos.
É importante destacar que a iniciativa não tem caráter regulatório e sim informativo. Fórmulas infantis não são reguladas pelo estado da Flórida, e o objetivo declarado do programa é oferecer transparência e informação ao público, especialmente a pais e responsáveis, além de estimular a responsabilização dos fabricantes.
De acordo com o material divulgado, o Departamento de Saúde da Flórida analisou 24 produtos de fórmulas infantis disponíveis no mercado. Os contaminantes avaliados incluem arsênio, cádmio, chumbo, mercúrio e pesticidas.
Os resultados completos foram disponibilizados em uma plataforma pública vinculada ao programa, onde os dados estão organizados em formato visual e em tabela técnica. Essa tabela apresenta, para cada produto:


O programa testou 24 produtos de fórmulas infantis disponíveis comercialmente no estado, avaliando a presença de metais pesados tóxicos como arsênio, cádmio, chumbo e mercúrio.
Dos 24 produtos analisados, 16 apresentaram níveis detectáveis de pelo menos um metal pesado ou outro contaminante, segundo o relatório divulgado pela Secretaria de Saúde da Flórida.
A plataforma de resultados detalha concentrações médias e máximas de contaminantes por marca e tipo de fórmula, incluindo:
Um aspecto relevante revelado pelo programa da Flórida é a existência de uma lacuna regulatória. Não existem limites federais específicos para metais pesados em fórmulas infantis nos Estados Unidos.
Existe a iniciativa Closer to Zero (Mais Perto de Zero), a FDA estabeleceu níveis de ação para arsênio inorgânico em suco de maçã e chumbo em alimentos processados destinados a bebês e crianças pequenas . A agência também propôs ou está considerando outros níveis de ação para chumbo, cádmio, arsênio e mercúrio em sucos e alimentos para bebês e crianças. No entanto, os níveis de ação da iniciativa “Closer to Zero” não se aplicam a fórmulas infantis.
A EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA) estabeleceu padrões legais de segurança para água potável em relação a cádmio, mercúrio inorgânico, arsênio e chumbo. O FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA) também estabeleceu limites máximos permitidos para esses metais pesados tóxicos na água engarrafada.
Encontrar traços de metais pesados em alimentos não é, por si só, uma prova de que o produto não é seguro, pois muitos compostos podem estar presentes em níveis que não representam risco de saúde quando comparados a limites de exposição baseados em toxicologia e consumo diário estimado. A simples detecção não é suficiente para afirmar que um produto está fora de conformidade ou é perigoso sem uma comparação com limites legais ou de risco baseados em avaliação toxicológica.
No Brasil, a Instrução Normativa ANVISA nº 160, de 1º de julho de 2022, estabelece os Limites Máximos Tolerados (LMT) de contaminantes, incluindo metais, em alimentos industrializados. Essa legislação foi elaborada para proteger a saúde do consumidor e inclui categorias específicas de alimentos.
A norma contempla explicitamente, entre outras, as seguintes categorias:
Essas categorias possuem limites próprios para contaminantes, considerando a alta vulnerabilidade do público consumidor, o padrão de consumo e os riscos toxicológicos associados.
Tabela – Metais pesados em fórmulas infantis segundo a legislação brasileira
| Contaminante | Limite Máximo (mg/kg) |
|---|---|
| Arsênio inorgânico | 0,02 mg/kg ou 20 ppm |
| Chumbo | 0,02 mg/kg ou 20 ppm |
| Cádmio | 0,01 mg/kg ou 10 ppm |
| Mercúrio | – |
Os dados divulgados pela Flórida não foram gerados com finalidade regulatória, tampouco para avaliação de conformidade legal. Trata-se de um esforço de monitoramento exploratório, que utiliza referências de exposição diária estabelecidas por agências federais dos Estados Unidos para contextualizar a presença de contaminantes em fórmulas infantis.
Para deixar claro como abordagens regulatórias diferentes levam a leituras diferentes, é possível fazer um exercício técnico exploratório usando um exemplo de resultado divulgado no programa da Flórida, comparando-o com os parâmetros estabelecidos na legislação brasileira.
Importante: o que segue não é uma avaliação de conformidade, nem uma conclusão regulatória. Trata-se de uma simulação didática, com base nos dados públicos divulgados e nos limites legais brasileiros, apenas para ilustrar como o enquadramento muda conforme o referencial adotado.
Nos dados divulgados pelo programa da Flórida, uma fórmula infantil apresentou, por exemplo, arsênio detectado em concentração da ordem de dezenas de partes por bilhão (ppb), valor reportado em base analítica conforme descrito na tabela do relatório público.
Na legislação brasileira, a Instrução Normativa nº 160/2022 da Anvisa estabelece para fórmulas infantis para lactentes um limite máximo tolerado de arsênio inorgânico de 0,02 mg/kg, aplicado ao alimento pronto para consumo, conforme instruções de preparo do fabricante. Convertendo apenas as unidades para fins de leitura técnica (mg/kg ↔ ppb), 0,02 mg/kg corresponde a 20 ppb.
O que isso significa no exercício comparativo?
De acordo com esta análise, mesmo quando há detecção, a maioria dos valores divulgados pela Flórida estaria dentro dos limites permitidos pela legislação brasileira, o que reforça que detecção analítica não equivale automaticamente a risco à saúde ou não conformidade.
Importante:
Essa leitura não determina conformidade, porque:
Esse exercício deixa claro que:
Ou seja, a diferença não está apenas no resultado da fórmula, mas no modelo regulatório que interpreta esse resultado, o que não muda é a gravidade dos perigos e a quantidade que pode causar um dano a saúde! Estas são informações que devemos sempre procurar.
Qual a gravidade do perigo em si e qual quantidade se torna perigosa para o organismo.
A integração entre os materiais analisados reforça um ponto essencial para a segurança dos alimentos: monitoramento, valores de referência e limites legais não são a mesma coisa.
Confundir esses conceitos pode gerar alarmismo desnecessário ou interpretações equivocadas sobre risco. Dados, por si só, não protegem consumidores o que protege é a leitura técnica correta desses dados.
O programa da Flórida amplia a transparência sobre a presença de metais pesados em fórmulas infantis e chama atenção para lacunas regulatórias existentes em alguns países. Ao mesmo tempo, ele reforça a importância de interpretar dados dentro do contexto correto, considerando método, referência utilizada e objetivo do monitoramento.
No Brasil, a existência de limites legais definidos para contaminantes em alimentos infantis mostra uma abordagem regulatória estruturada, ainda que o monitoramento contínuo e a comunicação responsável não sejam adequadamente realizadas. Existe limite implementado mas nem sempre existe monitoramento através de análise.
No debate sobre metais pesados em fórmulas infantis, números isolados não resolvem o problema. O que fortalece a segurança dos alimentos é a combinação entre dados confiáveis, marcos regulatórios claros e interpretação técnica responsável. É esse equilíbrio que sustenta decisões consistentes e protege, de fato, quem mais importa: o consumidor.
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Referencias: