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O Comitê do Codex sobre Higiene Alimentar (CCFH) realizou sua 55ª sessão em Nashville, Tennessee, EUA, de 15 a 19 de dezembro de 2025. A sessão contou com a presença de 50 países membros, uma organização membro, 13 organizações observadoras e representantes da FAO e da OMS, com foco na atualização e alinhamento de normas técnicas frente aos riscos microbiológicos emergentes, às novas evidências científicas e à necessidade de maior coerência entre os textos do Codex Alimentarius.
O encontro teve como eixo central a revisão e o alinhamento das diretrizes de higiene dos alimentos com os Princípios Gerais revisados (CXC 1-1969), abordando patógenos prioritários, vírus transmitidos por alimentos, alérgenos, parasitas e o uso seguro da água na produção e no processamento de alimentos.
Dentre os assuntos tratados, destacamos alguns:
Revisão dos Anexos II (Peixes e Produtos da Pesca) e IV (Avaliação da Adequação da Água, Gestão da Segurança e Tecnologias para Reuso)
Este foi o tema mais denso da reunião da 55ª Sessão do Comitê do Codex. Foi concluída uma etapa fundamental da revisão das Diretrizes para o uso e reutilização seguros da água na produção e no processamento de alimentos (CXG 100-2023), com destaque para o Anexo II, aplicável a peixes e produtos da pesca, e o Anexo IV, que estabelece os princípios para avaliação da adequação da água ao uso, gestão da segurança e tecnologias para recuperação, tratamento e reuso da água.
Abordagem baseada em risco e avaliação da adequação da água
Um dos principais avanços foi a consolidação do conceito de avaliação da adequação da água ao uso pretendido, com a distinção clara entre:
Essa diferenciação reconhece que a natureza e a profundidade da avaliação devem variar conforme a origem da água, seu histórico de uso e o potencial de contato direto ou indireto com alimentos. O Comitê reforçou que não é a avaliação em si que torna a água adequada, mas sim as medidas de controle implementadas com base nos resultados dessa avaliação.
Fontes de água e terminologia harmonizada
Foram realizadas diversas revisões editoriais e conceituais para assegurar consistência terminológica ao longo do texto, incluindo:
O Comitê também reconheceu a distinção entre águas offshore e costeiras, esclarecendo que águas costeiras podem ser consideradas adequadas ao uso, desde que atendam a critérios específicos de segurança.
Reuso de água e contato com alimentos
No contexto do reuso, o CCFH55 esclareceu que as disposições relativas à água reutilizada se aplicam exclusivamente quando houver potencial de contato direto ou indireto com alimentos, reforçando a necessidade de uma avaliação criteriosa dos riscos associados a cada aplicação.
Foi destacado que, no caso do reuso de água, a presença de nutrientes capazes de favorecer o crescimento microbiano representa um fator de risco relevante, devendo ser considerada explicitamente na avaliação e na gestão da segurança da água.
Gestão da segurança da água
No Anexo IV, o Comitê avançou significativamente ao esclarecer a gestão da segurança da água, estabelecendo que:
A linguagem foi ajustada para alinhar-se aos Princípios Gerais de Higiene Alimentar (CXC 1-1969), substituindo termos como “perigos previsíveis” por “perigos potenciais” e clarificando o conceito de gravidade dos efeitos adversos à saúde.
Encaminhamento e status regulatório
Com a conclusão das discussões técnicas e editoriais, o CCFH55 reconheceu que todas as questões haviam sido adequadamente abordadas e encaminhou os Anexos II e IV para adoção na Etapa 5/8 pelo Comitê Executivo do Codex (CAC49), com inclusão formal nas Diretrizes CXG 100-2023.
As Diretrizes sobre a aplicação dos princípios gerais de higiene dos alimentos ao controle de vírus nos alimentos (CXG 79-2012) avançaram, mas não foram concluídas.
A revisão das diretrizes considerou as recomendações científicas já disponíveis da JEMRA, incluindo os resultados da primeira reunião sobre vírus transmitidos por alimentos. No entanto, foi destacado que o segundo relatório da JEMRA, focado especificamente em medidas de prevenção e intervenção, ainda estava pendente, com publicação prevista para o início de 2026. Em função disso, o Comitê reconheceu que partes relevantes do texto, especialmente aquelas relacionadas a medidas de controle ainda dependem desse suporte científico adicional.
Até o momento, o trabalho incluiu:
Questões técnicas debatidas
O Presidente do EWG solicitou orientação específica do CCFH55 sobre temas considerados críticos para o avanço do texto, incluindo:
Em relação aos produtos congelados, houve divergência entre os membros quanto à indicação de uma temperatura específica (por exemplo, −18 °C).
Quanto à terminologia da água, o CCFH55 concordou em revisar e harmonizar os termos “água limpa”, “água própria para consumo” e “água potável”, com referência cruzada às diretrizes CXG 100-2023, de modo a garantir coerência entre os textos do Codex.
Aspectos de saúde ocupacional e comunicação de riscos
No que se refere ao retorno ao trabalho após gastroenterite, manteve-se no texto o exemplo de 48 horas, esclarecendo que se trata apenas de uma orientação ilustrativa, na ausência de diretrizes globais harmonizadas sobre o tema.
Já no contexto do controle do VHE, o Comitê concordou em remover a proposta de rotulagem específica de produtos, entendendo que a educação do consumidor é uma estratégia mais apropriada e consistente com outros textos do Codex.
Avaliação de risco e ferramentas de apoio
A FAO e a OMS atualizaram o Comitê sobre o avanço dos trabalhos em avaliação de risco microbiológico para vírus em alimentos. Embora nenhum dos modelos existentes tenha sido considerado adequado, isoladamente, como uma calculadora simplificada de risco, foi apresentado um protótipo conceitual de ferramenta baseada em produtos, que poderá:
O CCFH55 incentivou a JEMRA a continuar o desenvolvimento dessa ferramenta como apoio à futura implementação das diretrizes revisadas.
Encaminhamentos e status do trabalho
Ao final das discussões, o CCFH55 concluiu que, devido à dependência do Relatório da JEMRA – Parte 2, a proposta de revisão das diretrizes deve retornar à Etapa 2 do processo Codex. O Comitê decidiu:
A revisão das Diretrizes CXG 78-2011 atingiu a Etapa 5/8, representando um avanço significativo.
Escopo e abordagem de alinhamento
O grupo de estudo recomendou restringir o escopo das diretrizes à carne de frango crua proveniente de carcaças e partes de frangos de corte, incluindo orientações específicas para fígado de frango, em resposta a relatos recentes de surtos de doenças transmitidas por alimentos. Foi acordado que futuras revisões poderão tratar de outras preparações.
Resistência antimicrobiana e armazenamento
Embora a resistência antimicrobiana (RAM) esteja formalmente fora do escopo das diretrizes, o grupo de estudo reconheceu sua relevância e incluiu referências ao uso prudente de antimicrobianos, em consonância com a norma CXC 61-2005.
Em relação às temperaturas de armazenamento, o Comitê concordou em remover valores numéricos específicos e adotar uma recomendação mais flexível, orientando a manutenção de temperaturas inferiores a 5 °C, sempre que aplicável.
Avanços técnicos relevantes
Durante a análise seção por seção, o CCFH55 introduziu ajustes importantes para refletir evidências científicas recentes e melhorar a clareza do texto. Destaca-se a revisão da introdução para reconhecer que Campylobacter spp. e Salmonella spp.:
Medidas de controle na produção primária
No manejo do plantel, o Comitê revisou orientações relacionadas ao reuso de cama, acordando que:
Para Salmonella, o Comitê revisou o texto relativo a ovos para incubação, concordando que o uso de ovos infectados provavelmente resulta na infecção do lote, ao mesmo tempo em que manteve referências às medidas de limpeza e higienização, alinhadas às orientações da WOAH, com a ressalva de que deve haver flexibilidade na aplicação, considerando evidências científicas e contextos operacionais.
Despovoamento e transporte
No que se refere ao despovoamento e transporte para o abatedouro, o CCFH55 reconheceu que o despovoamento parcial aumenta o risco de introdução de infecções, embora não haja evidências suficientes de que cause imunossupressão. Como medida de mitigação, o Comitê concordou em incluir orientação para que:
O Comitê reforçou que o controle deve ser baseado em risco, evitando abordagens excessivamente prescritivas
As Diretrizes CXG 61-2007, revisadas, também avançaram para a Etapa 5/8, consolidando um texto mais robusto e alinhado com ferramentas modernas de avaliação de risco.
O trabalho foi apresentado pelos Estados Unidos da América, na qualidade de presidente do Grupo de Trabalho de Especialistas (EWG), com copresidência do Canadá, China e França.
As diretrizes revisadas incorporaram os pareceres científicos da JEMRA, conforme os relatórios MRA 38, 47 e 48, e buscaram garantir consistência com outros textos do Codex, em especial os Princípios Gerais de Higiene Alimentar (CXC 1-1969) e as Diretrizes para o estabelecimento e aplicação de critérios microbiológicos relacionados a alimentos (CXG 21-1997). A versão discutida foi preparada com base nos comentários recebidos durante a consulta formal (Circular 2025/62-FH).
Definição de alimentos prontos para consumo (RTE)
Um dos pontos centrais do debate foi a atualização da definição de alimentos prontos para consumo (RTE). O CCFH55 concordou em manter o conceito de “razoavelmente previsível”, entendido como situações em que, com base em evidências de hábitos ou práticas de consumo, é provável que o alimento seja consumido sem tratamento adicional validado para garantir a segurança dos alimentos.
Após extensa discussão, o Comitê aprovou uma definição revisada e mais geral, substituindo a referência específica a “tratamento listericida” por “tratamentos validados suficientes para garantir a segurança dos alimentos”, com o objetivo de:
Condições de refrigeração e critérios microbiológicos
Para garantir consistência com outros textos de higiene e recomendações da OMS, o CCFH55 acordou:
Monitoramento, equipamentos e estudos de validade
O Comitê introduziu ajustes importantes para reforçar o controle operacional:
Programas de Monitoramento Ambiental (PMA) e flexibilidade
No Anexo I, o CCFH55 reconheceu a necessidade de flexibilidade na implementação de Programas de Monitoramento Ambiental (PMA), especialmente na produção primária e para pequenos produtores. Foi acordado que a necessidade e a abrangência dos PMA devem considerar se os alimentos RTE são cultivados, colhidos, manuseados e embalados na própria unidade de produção.
O Comitê também concordou em:
A avaliação de risco e autoridade competente
No Anexo III, o CCFH55:
Encaminhamentos e status do trabalho
Ao final das discussões, o CCFH55 concluiu que todas as questões técnicas e editoriais haviam sido adequadamente tratadas e decidiu:
O CCFH55 relembrou que já encaminhou alterações consequentes no Código de Prática de gestão de alérgenos (CXC 80-2020) para alinhamento com a CXS 1-1985 (Rotulagem geral), especialmente quanto à lista de alergênicos. Entretanto, reconheceu-se que o Comitê de Rotulagem (CCFL) deve concluir na reunião de maio de 2026 o trabalho sobre Rotulagem Preventiva de Alérgenos (PAL) como anexo à CXS 1-1985, o que poderá exigir impactos diretos e mais amplos no CXC 80-2020.
Assim, o Comitê decidiu preparar o terreno para uma revisão robusta do CXC 80-2020, assim que o CCFL concluir o PAL. Como encaminhamento:
Destaques:
O Comitê discutiu proposta liderada por Singapura (com China, República da Coreia, Arábia Saudita e Reino Unido) para desenvolver um Código de Práticas de Higiene para fabricação de alimentos à base de células.
Decisão: não houve apoio suficiente para aprovar o novo trabalho nesta sessão. O CCFH55:
O CCFH55 debateu proposta para revisar o CXC 8-1976 para permitir congelamento/armazenamento/transporte/venda a ≤ -15 °C (em vez de -18 °C) para determinadas categorias (aves, suínos, vísceras e subprodutos), desde que assegurado controle eficaz da cadeia de frio. Houve interesse em ampliar o escopo para incluir uma gama maior de produtos (outras carnes, pescados e possivelmente agrícolas), e discutir se a qualidade deveria ser considerada junto à segurança.
Pontos-chave:
Decisões:
O Comitê debateu a necessidade de embasamento científico para uma possível revisão do CXC 66-2008 (fórmulas em pó para lactentes e crianças pequenas), reconhecendo que o texto foi desenvolvido em paralelo a outros códigos de higiene que já foram atualizados, deixando lacunas especialmente em limpeza e monitoramento ambiental. A discussão foi fortalecida por investigações em curso sobre surtos recentes de botulismo infantil, além de preocupações persistentes com Cronobacter spp. e histórico de Salmonella.
Decisão: solicitar à JEMRA:
O Comitê registrou ainda que resultados científicos futuros serão fundamentais para elaboração de documentos robustos (discussão e projeto) a serem considerados na sessão seguinte.
O Comitê aprovou o alinhamento estrutural e editorial das seguintes normas:
O alinhamento teve caráter não técnico, focado em numeração, terminologia, referências cruzadas e coerência estrutural, com encaminhamento para adoção pelo CAC
Parte A: alterações às diretrizes para o controle de Taenia saginata na carne de bovinos domésticos (CXG 85-2014).
Parte B: alterações às diretrizes para o controle de Trichinella spp. na carne de suídeos (CXG 86-2015).
Parte C: alterações à versão revisada das diretrizes alinhadas sobre a aplicação dos princípios gerais de higiene alimentar para o controle de parasitas transmitidos por alimentos (CXG 88-2016).
Anexo I – recomendações aos operadores de empresas alimentícias para o monitoramento ambiental – programa para Listeria monocytogenes na produção primária e processamento.
Anexo II – recomendações às autoridades competentes para o uso de microbiologia – testes como meio de verificar a eficácia do HACCP e seus pré-requisitos – programas para o controle de Listeria monocytogenes em alimentos prontos para consumo.
Anexo III – recomendações às autoridades competentes e aos operadores do setor alimentar para desenvolvimento e aplicação de critérios microbiológicos para Listeria monocytogenes em alimentos prontos para consumo.
A CCFH55 reforçou uma tendência clara do Codex Alimentarius:
As decisões tomadas em 2025 terão impacto direto na revisão de legislações nacionais, programas de segurança dos alimentos, auditorias, certificações e treinamentos, consolidando o Codex como referência técnica internacional para sistemas alimentares seguros, sustentáveis e baseados na ciência.
Codex Alimentarius reage a ameaça emergente de Clostridium botulinum em fórmulas infantis
Fonte da imagem: FAO