Linhagem multirresistente de Campylobacter coli se espalha pela Europa

Linhagem multirresistente de Campylobacter coli se espalha pela Europa

Uma linhagem multirresistente de Campylobacter coli se espalha silenciosamente pela Europa

Um estudo publicado na Emerging Infectious Diseases (outubro de 2026) mostra que uma linhagem multirresistente de Campylobacter coli circulou por anos entre pessoas, animais, alimentos e o ambiente, em vários países europeus, sem que ninguém a notasse.

Uma bactéria comum, um problema novo

As espécies de Campylobacter continuam sendo a principal causa bacteriana de gastroenterite de origem alimentar nos países ocidentais. A maior parte dos casos vem de C. jejuni, seguido de C. coli, e a carne de aves é o principal reservatório. Por muito tempo, as infecções foram vistas como esporádicas. A vigilância baseada em sequenciamento genômico completo (WGS) mostrou que muitos casos formam grupos geneticamente relacionados.

Como o alerta começou

Em Portugal, o sistema de vigilância com WGS revelou um pico de infecções por C. coli em 2022. O tipo de sequência ST10042 foi predominante naquele ano, representando 30% (25 de 83) das infecções por C. coli. Ele foi o tipo de C. coli mais frequente no país entre 2021 e 2025. Diante disso, os pesquisadores decidiram investigar se o fenômeno era só português.

O que os dados mostram

A análise reuniu isolados de ST10042 de nove países europeus, coletados entre agosto de 2018 e dezembro de 2025. Foram 217 isolados no total. Portugal contribuiu com o maior número de isolados humanos (85), seguido por Alemanha (30) e Luxemburgo (21).

A linhagem aparece em outros países além desses. Ela foi detectada também em França, Irlanda, Dinamarca, Países Baixos, Reino Unido e Espanha, em amostras de humanos, animais, alimentos e ambiente. Um grande grupo reuniu principalmente isolados de Portugal e Luxemburgo, ao lado de amostras de Alemanha, Irlanda, Reino Unido, Espanha e Países Baixos. Os dados genômicos indicam expansão clonal contínua, com diversificação crescente ao longo do tempo. A origem alimentar

A ligação com a cadeia alimentar aparece nos isolados não humanos. Dos 30 isolados de animais e alimentos, 25 vinham de aves. Os de alimentos foram obtidos de carne crua de frango e de peru em Portugal e de pratos prontos à base de frango em Luxemburgo. Isolados ambientais foram encontrados apenas em Portugal e Luxemburgo. Essa distribuição por vários setores é o que sustenta a abordagem “Uma Só Saúde” defendida pelos autores.

Resistência: o ponto mais preocupante

A linhagem tem um perfil de resistência bastante uniforme. Os isolados eram resistentes a fluoroquinolonas, tetraciclinas e betalactâmicos, e foi observada sensibilidade reduzida a carbapenêmicos. Todos os 98 isolados portugueses testados eram resistentes a ciprofloxacino, tetraciclina e ampicilina. Quase todos também resistiam à amoxicilina/ácido clavulânico e tinham sensibilidade diminuída ao ertapenem.

Há um cuidado na interpretação. Os autores ressaltam que a ausência de pontos de corte clínicos estabelecidos e de dados sobre desfechos clínicos limita a leitura do resultado para o ertapenem. Isso significa que a sensibilidade reduzida é um sinal de alerta, e ainda não se sabe o que ela significa para o tratamento dos pacientes.

Por que isso importa

A maioria dos casos de campilobacteriose melhora sem antibióticos. Mas em quadros que pioram, sobretudo em pessoas imunocomprometidas, o tratamento antimicrobiano pode ser necessário. Nesses casos, uma bactéria resistente a várias classes de antibióticos reduz as opções terapêuticas.

O estudo também mostra o valor da vigilância genômica integrada. Sem o WGS, essa linhagem poderia ter continuado a circular por muitos anos como uma série de casos isolados. Os achados reforçam a necessidade de vigilância coordenada entre os setores humano, animal, alimentar e ambiental, e entre os países.

Para o consumidor

As medidas clássicas continuam valendo: cozinhar bem a carne de aves, evitar contaminação cruzada na cozinha e lavar as mãos e os utensílios depois de manipular carne crua.


Fonte principal: Azevedo M, Nunes A, Lemos M-L, Costa PM, Amaro A, Clemente L, et al. Multisectoral emergence of multidrug-resistant Campylobacter coli sequence type 10042 lineage, Europe, 2018–2025. Emerg Infect Dis. 2026;32(10):1645-1656. https://doi.org/10.3201/eid3210.260512

Keli Lima
Keli Lima

CEO da BR Quality e Estilo Food Safety, especialista em Qualidade e Segurança dos Alimentos. Atua como consultora, mentora e auditora líder em normas de Food Safety e ESG.

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